





Capa

"Ethan sempre foi meu amigo e confidente. Companheiro de todas as horas. Passei toda a minha vida dizendo a Ethan quanto sou apaixonada pelo irmo dele, Jack. Mas 
Jack nunca me deu a mnima bola, acho que nem se quer reparou que eu existo. Ser que perdi meu tempo amando o irmo errado durante todos esses anos? Como descobrir 
qual dos dois  meu verdadeiro amor?" - Gerolyn "Gigi" Pelka.


Contra - Capa

Gerolyn "Gigi" Pelka passou um ano inteiro em Paris escrevendo cartas para sua melhor amiga Becky Cohen... e suspirando de amores pelo belo Jack Chandler. Jack  
o tpico garoto dos sonhos de todas as meninas e Gigi sonha com ele desde que se conhece por gente. Agora Gigi est de volta a Winnetka, sua cidade natal no estado 
de Illinois, determinada a fazer com que Jack repare nela custe o que custar. Mas o irmo mais novo de Jack, Ethan, amigo de infncia de Gigi, acha que  uma pssima 
idia: Jack tem fama de ser um verdadeiro dom-juan. Gigi merece algo melhor... ele mesmo, Ethan. Mas ser que ela vai lhe dar a chance de provar isso?





























Capitulo 1 - Uma americana em Paris 




25 de agosto 
algum lugar do oceano Atlntico

Querida Becky,
Ainda no consigo acreditar que estou de verdade - e finalmente - a caminho de Paris. Quando papai me deixou no aeroporto hoje cedinho ainda era noite, e eu me sentia 
to sonolenta que mal conseguia raciocinar. 
Na verdade todas as poucas energias que eu tinha naquele momento estavam sendo utilizadas para no pensar em voc sabe bem quem: Jack Chandler.
Na noite passada Jack convidou Lydia Joyner para uma festinha particular. S eles dois. Eu os vi da janela do meu quarto perambulando pela varanda da piscina. Chegaram 
at a dividir uma espreguiadeira - como se os Chandler no tivessem muitas! Talvez, a inteno dos inocentes pombinhos fosse s economizar espreguiadeiras.
Lydia, com seu rosto perfeito de modelo, seus cabelos loiros impecveis descendo como uma cascata dourada at a altura do queixo, e um vestido to justo e cavado 
que beirava a indecncia. Voc conhece a Lydia, sempre provocante... Fiquei to furiosa! Afinal, era a minha ltima noite em Winnetka antes de ir embora por um ano 
inteirinho. Idiota que eu sou. Tinha pensado que talvez, s talvez, Jack me convidasse para uma festa ntima de despedida.
Tudo bem, sonhe, sonhe, Gerolyn... Como se eu pudesse competir com Lydia Joyner!
Quando Jack e Lydia comearam a se beijar, bati minha janela com fora e puxei a cortina de rolo para baixo, j tinha visto o suficiente.
A tentei fazer o que voc me sugeriu uma vez: escrever num pedao de papel os piores defeitos de Jack. Mas no consegui me lembrar de nenhum - a no ser seu interesse 
por Lydia. Ento, em vez dos defeitos, comecei a listar tudo o que adoro nele. Acabei escrevendo quatro pginas inteiras! E teria escrito mais, mas minha caneta 
ficou sem tinta. Coloquei a lista num envelope junto com uma foto de jornal de Jack em seu uniforme de rgbi.
Para falar a verdade, quase dei um pulo na casa dos Chandler na noite passada. Eu estava voltando de umas compras de ltima hora (ouvi um desagradvel boato de que 
no d para conseguir manteiga de amendoim decente na Frana, e resolvi fazer o meu estoque) quando dei de cara com Ethan Chandler, que saa para dar a sua corrida 
diria. Ethan me pediu que passasse l mais tarde para dizer tchau, depois que eu terminasse de fazer as malas.
Eu tinha decidido ir, mas mudei de idia quando percebi que Lydia j estava l. No fazia o menor sentido ir s para ver o Ethan. Eu o vi todos os dias no semestre 
passado inteiro - ele era da minha classe -, e neste vero continuamos a tropear um com o outro no lago ou em passeios de bicicleta. Ethan sabe que sou fissurada 
no irmo dele, e acho que isso o deixa meio constrangido.
Tenho uma leve suspeita de que o Ethan nunca nem sequer saiu com uma garota. Voc no acha? Quando no est estudando, est correndo. Jack e Ethan so to diferentes! 
 difcil acreditar que sejam irmos, e muito menos que Jack tenha s um ano a mais do que Ethan.
Bom, chega de falar de mim e da minha pattica e inexistente vida amorosa. Estou indo para Paris! Escreva logo. J morro de saudades de voc.
Com amor,
Gerolyn

***

10 de setembro
Rive Gauche
(que quer dizer "margem esquerda"!)

Querida Becky,
Bonjour! Aqui estou sentada num caf, bebericando um caf au lait e observando esses estudantes franceses incrivelmente charmosos. Quase todos fumam, o que eu acho 
indecente, mas parecem to intensos curvados sobre suas xcaras e conversando uns com os outros como se estivessem resolvendo os problemas do mundo! At consigo 
entender uma palavra ou outra do que dizem, mas eles falam muito mais rpido do que ns falvamos a, nas nossas aulas. Chega a parecer uma lngua completamente 
diferente.
Minha famlia anfitri, os Thibault,  superlegal. Eles fazem com que me sinta totalmente em casa. Tenho o meu prprio quarto e o meu prprio banheiro. No  demais?
A maioria das minhas aulas - matemtica, cincia, histria -  em francs, e eu tenho aulas especiais de reforo pra desenvolver o meu francs mais rpido e poder 
acompanhar o ritmo dos outros alunos. Tambm tenho uma monitora pra me dar uma fora na lio de casa. Ela  o mximo. Seu nome  Vronique, e tem dezoito anos. 
Mesmo sendo s trs anos mais velha do que a gente, Vronique  to madura e sofisticada! Voc no ia acreditar no que ela veste pra ir  escola: parece at que 
est indo a um desfile de moda em vez de ao lyce ( assim que eles chamam o colgio aqui).
Vou fazer compras com Vronique neste fim de semana. Ela disse que vai ser uma boa experincia de aprendizado pra mim, um bom jeito de praticar conversao e ter 
um contato mais ntimo com a cultura francesa. Vamos  Printemps, uma das grandes lojas de departamentos de Paris, e depois a uma das butiques favoritas dela. No 
vejo a hora!
E quais so as novas por a? Voc tem visto o Jack na escola? Ele est saindo com alguma garota? Imagino que sendo um terceiranista ele no tenha tempo pra meninas 
do segundo colegial como ns - exceto, claro, Lydia Joyner. Conte tudo na prxima carta, e no me poupe dos detalhes trgicos. 
Com amor,
Gerolyn

***

21 de setembro
Versalhes

Querida Becky,
C estamos em Versalhes, que fica a uns vinte quilmetros de Paris, numa excurso da minha classe. Aqui em Versalhes tem um palais (um palcio) construdo por um 
rei da Frana h mais de trs sculos.  imenso, muito maior que a manso dos Chandler, e tem um corredor quilomtrico com janelas ao longo de um dos lados e espelhos 
do outro. O teto  curvo como um arco, que nem um tnel, e h pinturas no forro.  deslumbrante.
Desde que cheguei  Franca vi um monte de construes maravilhosas, at bem mais antigas, mas esta aqui desbanca todas. Depois de passearmos bastante pelo palcio, 
a gente - o pessoal da minha classe e eu - se sentou nos jardins e fez um belo piquenique. Fiquei pensando em como antes de vir para c eu no conseguia sequer imaginar 
uma casa maior ou mais bonita que a manso dos Chandler. Mas comparada ao Palcio de Versalhes a casa deles parece menor do que a casinha em que meu pai e eu moramos.
Ops, o pessoal j est entrando no nibus. Preciso ir.
Beijos carinhosos,
Gerolyn

***

30 de setembro
Do caf da Escola Internacional

Querida Becky,
J terminei de lanchar e ainda tenho um tempinho antes da prxima aula. Eu no ia mesmo conseguir esperar at de noite pra contar a voc o que fiz. Decidi que j 
est na hora de esquecer Jack Chandler de uma vez por todas. No posso continuar alimentando essa obsesso que est me destruindo!
Acho que o fato de morar numa casinha nos fundos da manso dele tornou as coisas muito piores. s vezes eu achava que conhecia o Jack to bem depois de observ-lo 
por todos esses anos que acabava tendo centenas de conversas imaginrias com ele dentro da minha cabea. At sonhava com Jack. Mas na vida real, sempre que calhava 
de estarmos no mesmo lugar na mesma hora era como se eu fosse completamente invisvel pra ele.
Eu sabia que se continuasse por mais tempo a ler a lista de qualidades que tinha escrito sobre Jack e a admirar sua foto antes de dormir, como tenho feito todas 
as noites desde que cheguei aqui, nunca iria parar de am-lo. Por isso - sei que voc no vai acreditar - na noite passada rasguei a droga da lista e a droga da 
fotografia, e at mesmo o envelope em que eu guardava as duas, e joguei tudo no cesto do lixo.
Mas quando adormeci no consegui parar de sonhar com ele. Eu estava nadando com Jack na piscina dos Chandler. Jack usava um colete salva-vidas vermelho, e eu vestia 
um mai atrevidssimo (bem do tipo que Lydia Joyner usaria). Estvamos brincando de pega-pega e expirrando gua um no outro, nos divertindo  bea. De repente percebi 
que conseguia respirar debaixo d'gua feito uma sereia, e Jack tambm. Ficamos um tempo no fundo da piscina e ento ele me beijou, ainda debaixo d'gua
A eu acordei. 
Becky, o que voc acha que isso significa? Ser que estou pirando de vez?
Quando acordei, peguei os pedaos da fotografia no cesto do lixo e juntei de volta com durex. A lista de qualidades eu deixei l mesmo. Afinal, j sei de cor.
Saudades. 
Grosses bises, 
Gerolyn

***

20 de outubro 
Paris

Querida Becky,
Arranjei um novo nome: Gigi. Ningum aqui na Frana consegue pronunciar direito o meu nome, e me cansei de ficar soletrando uma vez atrs da outra. Vronique sugeriu 
que eu adotasse um nome francs, e gostei da idia.
O que voc acha?
Eu adorei, e estou planejando manter esse nome mesmo quando voltar para Winnetka. Me sinto uma pessoa diferente aqui em Paris, e portanto  mais do que justo que 
eu tenha um nome novo tambm.
Escreva logo.
Com amor,
Gigi

***

29 de outubro 
Chez les Thibault

Querido papai,
Estou sentada aqui na escrivaninha do meu quarto na casa dos Thibault, dando um tempo nos estudos. Madame Thibault fez um jantar incrvel pra gente hoje: galinha 
assada, verduras, arroz, salada e torta de ma de sobremesa. Eu sei que falando assim no soa to incrvel, mas sei l, parece que na Frana tudo tem um sabor melhor 
(sem querer menosprezar os seus talentos culinrios, pai). Acho que  o jeito de eles usarem os temperos, ou talvez os ingredientes sejam mais frescos.
s vezes vou ao mercado com madame Thibault. Ela no faz as compras em um supermercado como ns fazemos a. So dzias de barracas com diferentes frutas e verduras, 
e vrias delas s tm queijos (alguns queijos so realmente fedidos, mas a maioria  uma delcia).
Madame Thibault tambm vai todos os dias  padaria pra comprar po fresquinho. Hmmm, eu adoro! To crocante por fora e to fofinho por dentro!
Mas no  s a comida e a lngua que so diferentes aqui, pai.  tudo! Estou to feliz por voc ter me deixado vir! Eu sei que no deve ter sido nada fcil economizar 
o dinheiro necessrio para eu poder passar este ano no exterior, e apreciei muito isso da sua parte.
Sinto que estou mudando rpido, um pouco a cada dia, e no s por estar aprendendo francs. Em parte  pelo fato de morar com os Thibault, especialmente madame Thibault. 
Ela  to legal - ela prpria diz que  minha maman franaise, minha me francesa. Sabe, pai, at vir pra c eu nunca tinha percebido o quanto sentia falta de uma 
me. No que voc no tenha feito um timo trabalho me criando sozinho depois que a mame morreu. Mas  que agora, aqui na Frana, sinto que estou tendo uma oportunidade 
muito especial de amadurecer e aprender mais sobre mim mesma.
Acho que esse  o meu jeito cheio de rodeios de dizer obrigada a voc.
Amo voc, papaizinho.
Gigi

P.S.: Por acaso voc tem visto o Jack Chandler? Diga a ele que mandei um oi.

***

Manh do dia de Natal 
Winnetka

Queridssima Gerolyn,
Sem voc fica bastante solitrio por aqui, principalmente no Natal. Mas os Chandler ficaram com pena deste pobre e triste vivo e me convidaram para ceiar. A ceia 
deles  sempre deliciosa e farta - tenho certeza de que com essa refeio vou poder ficar sem comer at o Ano Novo! 
Me lembro de que h alguns anos eu me sentia constrangido como convidado na casa deles, j que os meus pais haviam sido empregados dos pais do sr. Chandler. Mas 
eles sempre me trataram como um vizinho, e no como o filho do antigo chofer e da antiga cozinheira da famlia. Alm do mais, quando a sua me morreu e voc era 
s uma criancinha eles foram especialmente amveis. Abaixaram para quase nada o aluguel desta casinha nos fundos da manso deles, que como voc sabe era a antiga 
cocheira dos Chandler, e colocaram a bab dos garotos pra dar uma olhada em voc tambm. Se no fosse por eles, acho que eu no teria conseguido terminar a faculdade 
de direito. No sei por que tenho pensado tanto no passado nestes dias - deve ser por causa das frias, sempre um tempo de reminiscncias.
Adoro receber as suas cartas e ler sobre as suas aventuras na Frana. A viagem de bicicleta pelo Vale do Loire deve ter sido fantstica. Eu preguei os cartes postais 
dos chateaux naquele mural em cima do meu computador.  difcil acreditar que havia gente morando nesses enormes castelos de pedra centenas de anos atrs. Fico muito 
feliz por voc ter tido essa chance de v-los.
A sra. Chandler sempre me pergunta por voc. Ela manda beijos carinhosos, assim como o resto dos Chandler. Todos sentimos muito a sua falta, Gerolyn, especialmente 
no dia de Natal.
Com amor, 
Papai

***

Dia de Ano Novo
Paris

Querida Becky,
Tive um rveillon maravilhoso. Minha monitora, Vronique, armou um encontro de verdade pra mim! Seus tios e primos vieram a Paris para passar as festas de fim de 
ano, e o primo de Vronique, Philippe,  s um ano mais velho que a gente - e  lindo! Ele me levou pra jantar num pequeno bistr supercharmoso. Depois subimos ao 
topo da Torre Eiffel e de l assistimos aos fogos de artifcio. Foi demais!
Philippe at me beijou  meia-noite. Eu nunca tinha beijado um garoto fumante. Mas o mais estranho  que mesmo sendo tudo to romntico, to perfeito - fora o gosto 
de cigarro -, no senti nada de especial por Philippe. Acho que pra ele foi a mesma coisa. O que importa  que nos tornamos bons amigos, e Philippe me convidou pra 
visit-lo l onde ele mora, a Provena, no sul da Frana.
Gostaria tanto que voc pudesse vir tambm! Voc ia adorar tudo isto aqui, tenho certeza.
Amor e milhes de beijos,
Gigi

P.S.: Voc foi a alguma festa de rveillon? Se foi, quem mais estava por l? Por acaso algum com as iniciais J.C.?

***

21 de Maro 
Paris

Querida Becky,
No sbado passado  noite eu sa com um dos garotos da minha classe de literatura francesa. Ele me levou  Disneylndia de Paris, e agente acabou ficando. Bernard 
no fala nada de ingls, mas meu francs j est bom o suficiente pra me comunicar muito bem com qualquer pessoa. Bernard me lembra um pouco o Jack. Ele passou o 
brao por cima dos meus ombros em uma das voltas de trem-fantasma, e eu tentei imaginar que era o Jack. Mas no funcionou. No que isso tenha me surpreendido. Quero 
dizer, se fosse assim to fcil encontrar um substituto pro Jack, ento  porque eu no estaria realmente apaixonada por ele, no  mesmo?
Vamos ter um bom feriado na semana que vem l na escola, e vou aproveitar pra visitar o Philippe na Provena. Gostaria que voc pudesse vir junto. Sinto falta de 
ter a minha melhor amiga por perto pra conversar. Responda logo.
Beijos,
Gigi

***

19 de abril 
Paris

Querida Becky,
Uau! O sul da Frana  de tirar o flego! Um monte de vilarejos com aquelas casinhas de pedra que fazem voc se sentir na Idade Mdia (e na verdade algumas delas 
so mesmo da Idade Mdia). E a comida! A me de Philippe, madame Pujolas,  ainda melhor cozinheira que madame Thibault - e olha que isso no  pouca coisa!
O mais estranho  que apesar de ter a sensao de estar o tempo todo comendo, na verdade eu at perdi alguns quilos. Acho que  porque aqui eles comem menos carne 
e pores menores, e alm disso ningum lancha entre as refeies.  Todo mundo conversa durante a jantar, comendo devagarzinho e saboreando cada bocado.
Voltei pra Paris na semana passada e me senti como se estivesse chegando em casa. Quando for independente acho que vou querer morar em Paris.  to cosmopolita! 
Alm do mais, no posso me tornar uma jornalista famosa morando toda a minha vida em Winnetka, atolada no meio do estado de Illinois. No h muitas notcias por 
ai pra se escrever a respeito.
Por falar em notcia, a vai a maior de todas (deixei por ltimo de propsito): tingi o meu cabelo! Vronique me levou ao cabeleireiro dela. Eu estava to amedrontada 
que quando o colorista terminou morri de medo de me olhar no espelho. Mas ficou timo! Aquela cor de burro quando foge no dava mais p. Ele continua sendo castanho, 
mas muito mais vivo, e agora tem tambm umas mechas douradas. Acho que iluminou bastante o meu rosto.
E no foi s a cor do cabelo que eu mudei: tambm fiz algumas inovaes nas minhas orelhas. Vronique disse que elas so bonitas, e me convenceu a perfur-las. Adoro 
os dois pequenos botes de ouro que estou usando agora. Daqui a umas duas semanas j vou poder usar qualquer tipo de brinco que quiser. A  Vronique at j me deu 
de presente umas argolas de ouro chiqurrimas. Mal posso esperar pra experimentar. Ela sempre diz que eu tenho um jeito trs lgante, muito elegante.
Vronique tambm quis me dar um conjunto de maquiagem novo pra combinar com a nova cor do meu cabelo, e me levou pra comprar quilos de cosmticos. Ela disse que 
as cores do meu estojo estavam todas erradas, e tinha toda a razo. Acho que eu andava usando rmel demais, e o meu batom era muito berrante. No dia seguinte, na 
escola, reparei que os garotos me olhavam com o canto do olhos quando eu passava por eles. Bernard me convidou pra sair de novo, mas recusei. Ele me lembra demais 
o Jack, e eu estou fazendo de tudo pra parar de pensar nele.
J faz um bom tempo que mandei ao Jack um carto-postal, mas at hoje ele no respondeu. Nem sei se chegou a receber. Daria pra voc perguntar a ele na prxima vez 
que o encontrar? Tente fazer a coisa parecer casual, tipo "E ento, voc teve alguma noticia da Gerolyn?".
Escreva logo.
Saudades,
Gigi

***

8 de junho 
Paris

Querida Becky,
Voc consegue imaginar a fora que eu tenho feito pra me esquecer do Jack? Pois bem, no outro dia eu estava conversando com a Vronique a respeito dele (Vronique 
o chama de Jacques, e eu adoro como soa!) e ela no entendia por que eu quero esquec-lo.
"Por que voc simplesmente no vai atrs dele?", sugeriu.
Tentei explicar que no semestre que vem Jack vai ser um snior e eu vou ser apenas uma jnior. E que ele  o garoto mais rico e mais popular da Winnetka High School, 
e que eu sou, bom... nem a mais rica nem a mais bela das garotas.
Vronique disse que o segredo  ser misteriosa, se fazer mais tentadora e sedutora. Ela me mostrou como girar a cabea para olhar para um garoto e como lhe lanar 
um sorriso misterioso, mais ou menos um meio-sorriso. Disse que nenhum homem consegue resistir a um sorriso desses. No dia seguinte eu pratiquei o meu sorriso misterioso 
na escola - e ela estava certa! Antes do dia ter terminado dois garotos j tinham me convidado pra sair!
As minhas provas finais so na semana que vem, e depois delas acabou-se o ano letivo. E agora, as notcias mais quentes do dia: papai disse que posso ficar com os 
Thibault por todo o vero! E o melhor de tudo  que eles esto indo para a Grcia em agosto e vo me levar junto! Estou  to excitada com  isso!  No me  esqueci 
de que  ns duas estvamos planejando fazer algo juntas neste vero, mas, Becky, eu no podia perder essa chance. No sei quando vou ter uma nova oportunidade de 
voltar a Europa, e muito menos de ir  Grcia. Espero que voc no fique brava comigo... 
Com amor, 
Gigi

***

20 de julho 
Auvergne

Querida Becky, 
No fim de semana passado fui com uma turma da escola fazer um passeio no campo, no Centre -  assim que eles chamam a regio central da Frana. Fomos de nibus at 
o topo do Le Puy-de-Dme, um enorme vulco extinto. Dava pra enxergar num raio de dezenas de quilmetros. H muitos lagos e vulces extintos naquela regio. Do nosso 
ponto de observao os vulces pareciam montanhas de sorvete verde com uma enorme colherada arrancada dos cumes. 
Claro que isso me fez pensar no Depot e no quanto eu tenho saudades dos cremosos e deliciosos milk-shakes duplos deles. Acho que  absolutamente impossvel encontrar 
um milk-shake decente em toda a Frana.
O interior deste pas  to diferente de tudo o que eu j vi! Acho que tambm h vulces nos Estados Unidos (perto de Winnetka com certeza no), s que nunca tive 
chance de ver nenhum. Estar em um lugar to diferente faz eu me sentir diferente tambm. E a eu me pergunto: se eu ficasse na Frana pelo resto da minha vida, ser 
que sempre ia sentir falta dos sorvetes do Depot, ou no fim acabaria me esquecendo completamente de tudo relacionado a Winnetka? (com exceo de voc, claro!)
s vezes me sinto to sozinha... Sei que soa estranho dizer isso logo depois de ter contado a voc que fiz uma excurso com uma turma de amigos aqui. Mas sinto falta 
de poder olhar pela janela do meu quarto e ver a piscina dos Chandler, de ficar olhando o Jack nadar crawl... Ele atravessava a piscina que nem uma lancha, deixando 
um sulco na gua atrs de si (tudo bem, estou exagerando um pouquinho).
Mas em outros momentos no tenho nenhuma vontade de voltar pra casa. Sinto que aprendi muitas coisas neste ano que passou - sobre a vida, sobre mim mesma -, e tenho 
medo de que tudo isso fique no aeroporto de Paris quando eu for embora daqui.
Fiquei contente por voc ter gostado do meu novo nome. Papai se recusa a us-lo quando me escreve. Eu relembro a ele em todas as novas cartas, mas no adianta.
Hoje  tarde vou  piscina pblica. Em geral as pessoas aqui adoram nadar, e h montes de piscinas pblicas em Paris.
O que tem acontecido a em Winnetka neste vero? Os Chandler foram para a sua casa de campo, como de costume? Tem algum entrando de bico na piscina da manso enquanto 
eles esto fora? Me conte todas as novidades.
Milhares de beijos e abraos,
Gigi

***

9 de agosto 
Mikonos

Querida Becky,
As ilhas gregas so um paraso! Chegamos a Atenas na semana passada e ficamos l dais dias. Foi fascinante, mas a cidade  to fumacenta que chega a ser difcil 
respirar. Como se no bastasse o mal que isso faz  sade das pessoas, a poluio est corroendo as runas da acrpole. Uma tristeza.
Nos ltimos dias estivemos pulando de ilha em ilha, de barco de uma para a outra. Alguns desses dias ns passamos inteirinhos na praia, outros dedicamos a explorar 
as runas antigas. Comprei um livro sobre mitologia grega.  to legal ler sobre um lugar quando voc est nele de verdade! Gostaria que voc estivesse aqui. Voc 
ia adorar tudo - menos a comida, sempre encharcada de azeite de oliva (argh!).
Vou chegar a em Winnetka alguns dias antes de as aulas recomearem. No consigo acreditar que vamos ser juniores! Senti tanto a sua falta neste ano, Becky... No 
vejo a hora de poder mostrar a voc todas as roupas que comprei na Frana. No tm nada a ver com as coisas que voc pode encontrar nas lojas de Winnetka. Com estas 
roupas, o meu novo cabelo e o meu novo look, tenho certeza de que o Jack no vai ser capaz de resistir. Veremos. 
Com amo,
Gigi

***

20 de agosto

Queridssima Gerolyn,
Eu pretendia que o dia da sua volta ao lar fosse muito especial, mas infelizmente tenho de fazer uma viagem de negcios. Vou pegar um avio justo na sexta-feira, 
s umas poucas horas antes de voc chegar. Perguntei  sra. Chandler se Jack ou Ethan no poderiam me levar de carro at o aeroporto e j aproveitar pra pegar voc. 
Ela me garantiu que no vai ser nenhum problema. Que ironia, ter um dos Chandler nos servindo de chofer: que inverso de papis!
S vou ficar fora uma noite, de maneira que vamos poder passar juntos a maior parte do fim de semana antes de voc recomear a escola segunda-feira.
Espero que Winnetka no seja entediante demais depois de um ano de Paris. Peguei alguns vdeos pra gente, e aperfeioei o meu molho barnaise. Estou to feliz por 
voc estar voltando!
Com amor, 
Papai

***

22 de agosto 
Paris

Querida Becky,
No consigo acreditar que este meu ano no exterior est quase no fim. Continuo com medo de que quando eu chegar em Winnetka a nova Gigi desaparea e eu volte a ser 
a velha e sem-graca Gerolyn - aquela menina de quinze anos desajeitada, deselegante e insegura que seguia Jack Chandler que nem um cachorrinho pra todo canto. 
No vejo a hora de ver voc! Os Thibault me ofereceram um despedida, e parecia que todo mundo sabia exatamente o que me dar de presente: roupas, brincos e mais roupas. 
Vou ser a jnior mais bem vestida da histria da Winnetka High School!
At breve!
Beijos,
Gigi








































Capitulo 2 - A Volta da filha Prdiga 



    Quando sa do avio em Winnetka, Illinois, lutei para acalmar meu corao disparado. Mal podia esperar para ver Jack - e para ele me ver. A nova eu: Gigi.
    Passei pela alfndega como um zumbi, peguei minhas malas na esteira rolante e me juntei  multido no porto que dava para o saguo terminal.
    Olhei para a confusa massa de rostos ao meu redor. Onde estava Jack? A carta de papai no tinha dado certeza de que Jack estaria l para me receber, mas eu tinha 
desejado isso com tanta Intensidade no avio durante toda a viagem que terminara por BC convencer de que tudo aconteceria exatamente como nos meus sonhos.
    Claro, Jack estaria procurando pela mesma velha Gerolyn, aquela menina sem graa de rabo-de-cavalo. Quando me visse, me olharia com aquele desejo mal disfarado 
no canto do olho - ou talvez nem sequer me reconhecesse.
    Ento, quando finalmente percebesse quem eu era, ficaria chocado, sem fala. Eu lhe lanaria o sorriso misterioso que aprendera com Vronique, e ele se tornaria 
meu para sempre...
    Meus olhos continuaram a esquadrinhar a multido. Ele tinha de estar l em algum lugar. Tinha de estar.
 De repente escutei uma familiar voz masculina gritar Gerolyn!" com toda fora.
Papai!
Ele me agarrou com um apertado abrao de urso e me espremeu at eu mal conseguir respirar. Meus olhos ficaram rasos d'gua. Eu sabia que ele tinha sentido muito 
a minha falta, mas no tinha notado o quanto eu tinha sentido falta dele at aquele momento.
    - Voc no se lembra, pai? - perguntei quando por fim pude respirar de novo. - Agora  Gigi. No Gerolyn.
    - Tudo o que voc quiser amor - disse ele, apressado. - Mas olha s pra voc! Voc est linda! - continuou, agarrando minha mo. - Filhinha, sinto muito, muito 
mesmo, mas tenho de correr. Meu avio sai agora, e todo mundo j est embarcando. Estou feliz por ter pelo menos conseguido ver voc. Quando descobri que o seu vo 
estava atrasado fiquei com medo de que a gente se desencontrasse completamente.
    - E onde est o Jack? - perguntei. - Pensei que ele viesse com voc.
    -        Jack estava ocupado. Ethan veio no lugar dele -
respondeu papai.
    Foi s ento que reparei em Ethan bem atrs dele. Tentei esconder minha decepo por ele estar l em vez de seu irmo.
-        Preciso ir - repetiu meu pai. - Amo voc, filhinha.
    Ele pegou sua pasta e sua sacola de viagem do cho, me deu outro abrao de esmigalhar os ossos e correu para o porto de embarque.
    Ethan s me olhava fixo, sem dizer nada. Mas no levei a mal. Eu sabia que ele era de poucas palavras. Sempre tinha sido. Mesmo quando ramos criancinhas e brincvamos 
juntos ele raramente falava mais do que o estritamente necessrio. Aquilo no me incomodava. Era o jeito dele, tudo bem,
- Oi, Ethan - cumprimentei. - Obrigada por vir me pegar.
-  um prazer - ele replicou.
    Ethan pegou as minhas malas e nos dirigimos para a sada e depois para o estacionamento. Ele ia andando uns poucos passos  minha frente, abrindo caminho no 
lotadssimo aeroporto.
- Como vai o Jack? - perguntei pelas costas dele.
    - Na mesma - respondeu Ethan. - Agora exatamente est no treino de rgbi. Ele vai ser o capito do time neste ano.
- Mas as aulas nem comearam - observei.
- , mas a maioria dos times escolares j comeou a treinar.
    Embora minha mente estivesse centrada em Jack e em como ele reagiria  nova eu, no pude deixar de notar que Ethan tambm tinha feito as suas mudanas naquele 
ano que se passara desde que eu partira.
    Ele estava mais alto do que eu me lembrava, e caminhava atravs da multido com um ar de autoconfiana que antes no tinha. H no muito tempo Ethan era um boc 
magricela que dependia de seu Irmo grandalho para proteg-lo dos trogloditas da escola.
    Eu trouxera duas malas enormes cheias de roupas novas, maquiagens e lembranas, e sabia que elas pesavam uma tonelada. Mas Ethan as carregou como se estivessem 
vazias. Ele deve ter andado praticando musculao, pensei enquanto reparava em seus bceps que se salientavam sob a manga da camiseta. Ele no era to musculoso 
quanto Jack - nem de longe -, mas ningum poderia mais descrev-lo como um magricela fracote.
    Ethan jogou minhas malas na traseira de seu jipe preto. Foi bom ele no ter pego o Miata vermelho de sua me: as malas nunca teriam cabido.
    Quando finalmente saamos do estacionamento do aeroporto, Ethan falou.
- Quase no reconheci voc.
-  o meu cabelo - eu disse.
- No - replicou ele. - No  s o cabelo.
    - Os brincos? - perguntei, passando um dedo pela argola de ouro na minha orelha esquerda.
    Ele sacudiu a cabea, continuando a me olhar com a mxima freqncia possvel enquanto dirigia.
-        As roupas ento? - tentei novamente.
    Antes daquele meu ano no exterior eu quase sempre usava jeans folgados e camisetas. Agora estava vestida com um elegante tailleur preto, uma roupa que dificilmente 
seria vista numa garota B VVinnetka. Eu tinha levado horas para escolher aquele traje. 1'orjack...
    -        No, tambm no  isso - insistiu Ethan, arregalando os
Olhos. -  realmente estranho. Voc parece to diferente, to...
    Eu me virei e lancei a ele o meu sorriso misterioso. Precisava praticar um pouco para ter certeza de que tinha pego bem o jeito antes de us-lo com Jack. Uma 
buzina rugiu atrs de ns avisando a Ethan que o farol tinha ficado verde.
    - E aonde vamos agora? - perguntei, ajustando meu cinto de segurana.
    - U, voc no quer ir pra sua casa? - se surpreendeu Ethan.
    Se Jack estivesse na casa dele, eu teria ido para a minha direto, que nem uma abelha para a sua colmia. Mas com papai viajando e Jack no treino de rgbi, voltar 
para a nossa pequena ex-cocheira atrs da manso dos Chandler era a ltima coisa que eu queria fazer.
- No podemos ir a algum outro lugar? - perguntei.
    - Claro. Onde voc quiser - respondeu Ethan com uma encolhida de ombros. - Do que voc sentiu mais falta enquanto esteve fora?
    - Do Depot - retorqui sem hesitao. - Agora mesmo eu daria conta tranqilamente de um milk-shake duplo com todas as coberturas a que tenho direito.
- Voc sabe que o Depot demora pacas - advertiu Ethan.
-        O servio no melhorou nada?
Ele sacudiu a cabea.
    - Absolutamente nada. Faz parte da atmosfera do lugar. Se melhorasse no seria mais o Depot.
    - Bom, no quero que voc perca toda a sua tarde comigo se for demorar uma eternidade...
    - Na verdade eu tenho um compromisso mais tarde. Tenho treino na pista de corrida da escola. J estou me preparando para o torneio estadual, e no posso faltar. 
No sei se daria para ir ao Depot, depois levar voc pra casa e ainda chegar a tempo no treino.
    - Tive uma idia melhor - falei animada. - Vou com voc pra escola depois do Depot e depois do seu treino voc me leva pra casa. T bom assim?
    Eu sabia que o time de rgbi de Jack ia estar praticando no campo da escola: talvez eu conseguisse v-lo por l.
- Mas, voc no est cansada? - perguntou Ethan surpreso.
    - Um pouco - respondi honestamente -, mas ao mesmo tempo estou to excitada por estar de volta que me sinto energizada.
    O que eu no disse a ele foi que a idia de finalmente ver Jack depois de um ano longe era o suficiente para me fazer perder o sono por uma semana.
    -        Ento, ao Depot! - exclamou Ethan, dobrando  direita
em um cruzamento.
    Eu no esperava que Ethan dissesse mais nada. Afinal, era Jack o irmo charmoso e espirituoso. Ethan era o quieto. E desde que ele e eu havamos comeado o 
colegial, tnhamos parado de conversar como fazamos em crianas. Acho que isso tinha acontecido, sobretudo por minha culpa. Antes mesmo de ter chegado  oitava 
srie eu j sofria de uma paixonite obsessiva por Jack, e sempre que me encontrava com Ethan o bombardeava com perguntas a respeito de seu irmo: onde anda Jack? 
com quem ele est? a que horas ele volta?... Provavelmente Ethan linha se enchido das minhas perguntas.
Mas dessa vez ele me surpreendeu.
    -        Sabe, eu nunca disse isso, mas realmente admiro voc por
ter sado um ano inteiro de Winnetka - disse ele.
   -        Foi divertido e assustador ao mesmo tempo - repliquei.
- Mas apesar de estar vivendo mil experincias novas e conhecendo um monte de gente, mesmo assim eu realmente sentia falta de... bem, sentia falta de todo mundo.
    -        Talvez eu logo tenha chance de viajar tambm, de ver o
inundo. Sabe, os Chandler esto vivendo em Winnetka h mais
de cem anos. A mesma casa, a mesma cidade, a mesma igreja, as
mesmas escolas. Tenho planos de ser o primeiro Chandler a
romper com esse esquema.
    Era estranho aquele jeito de Ethan falar da sua prpria famlia. Os Chandler isso, os Chandler aquilo, como se ele no se sentisse um verdadeiro membro daquele 
cl. Completamente diferente de Jack, que parecia mais do que satisfeito com o seu status.
    E o Jack? - perguntei, olhando para a rua pela janela como quem no quer nada. - Ele pretende viajar tambm?
    - Acho que no. Jack est contente com as coisas do jeito que so. Capito do time de rgbi da escola, popular e querido por todos... Ele provavelmente vai ser 
aceito pela Universidade de Illinois no ano que vem, e quando se formar vai assumir os negcios da famlia e seguir o mesmo caminho do meu pai e do meu av, se integrando 
totalmente no mundo em que eles sempre viveram. Por que ele iria querer partir daqui?
- Mas voc quer, no quer?
    - Talvez porque sou o segundo filho, e no o primognito como Jack. No vou ser o presidente da Metalurgia Chandler. Jack vai. Quer dizer, eu at poderia fazer 
parte da empresa se quisesse, e na verdade h algumas aes reservadas pra mim, mas se eu ficasse estaria sempre  sombra de Jack. Mais ou menos como estou agora.
    Eu no sabia o que responder. Tudo o que ele acabava de dizer era absolutamente verdadeiro. Ethan sempre estivera  sombra de Jack, na escola e em casa. Ele 
no podia competir com Jack. No tinha sua beleza nem seu charme, e no se importava muito com a maneira de se vestir. Apenas um ano os separava, mas eles pareciam 
pertencer a mundos diferentes. Eu podia entender por que Ethan queria ir embora de Winnetka.
    - E pra onde voc quer viajar? - perguntei com um tom leve e animado.
    - Primeiro para a Alemanha - respondeu Ethan, enquanto continuava a dirigir. - Aprendi alemo porque  a lngua da cincia. Posso responder a quase qualquer 
pergunta sobre fsica, qumica ou matemtica em alemo, mas no tenho certeza de que conseguiria escolher um prato em um restaurante em alemo, ou dizer  lavanderia 
para tirar as manchas da minha camisa, ou perguntar a algum onde fica uma rua. Eu gostaria de ser melhor na linguagem do dia-a-dia, da vida real.
    - Talvez voc devesse mudar para o francs - sugeri. -  mais fcil de dominar e soa bonito at quando voc diz alguma coisa boba do tipo "j'ai un crayon bleu".
    - Ei,  mesmo!  muito mais gostoso de ouvir do que o alemo. O que voc disse?
- Eu tenho um lpis azul.
    - No brinca. Srio? Que demais! Talvez eu devesse me matricular em francs l na escola. Por alguma razo sempre que eu digo alguma coisa em alemo soa como 
se estivesse gritando
com o cachorro.
    Ns dois rimos, e de repente me dei conta de que nos ltimos minutos eu no tinha pensado em Jack nenhuma vez. Me senti mais relaxada do que havia me sentido 
durante toda a semana, sempre preocupada com o meu encontro com Jack, com o que eu iria dizer, o que ele diria...
    Eu tinha me esquecido de como era gostoso estar com Ethan. Ns tnhamos sido melhores amigos um do outro quando ramos pequenos. Tnhamos a mesma idade e brincvamos 
juntos depois da escola. Jack geralmente estava fora com seus amigos e no nos dava a mnima ateno, s porque ramos um ano mais novos do que ele. Um ano parecia 
muito naqueles tempos.
    Mas ao entrar no colegial, Ethan e eu tnhamos nos afastado. Todo mundo dava por certo que se um garoto e uma garota andavam sempre juntos era porque estavam 
namorando. A idia das pessoas ficarem pensando isso a respeito de ns dois tinha me constrangido, e por isso eu de certa forma passara a evit-lo. Provavelmente 
no tinha sido a melhor maneira de administrar a situao, mas eu queria que ficasse bem claro para Jack que eu estava disponvel para sair com ele (no que ele 
tivesse me convidado).
    Agora eu comeava a perceber que talvez tivesse perdido algo de importante ao cortar Ethan da minha vida. Ele podia no ser to musculoso quanto Jack, nem to 
popular, nem fazia meu corao disparar como simplesmente pensar em Jack fazia, mas no era nem de longe o cientistazinho bitolado que muita gente achava que ele 
era. Ele devia ter passado a usar lentes de contato, porque no estava mais de culos - e eu sabia que ele precisava de culos para dirigir. Ethan me parecia um 
garoto bonito e interessante - como amigo, claro -, e s de olhar para ele j se via que era um cara legal.
    E sua voz soava agora mais doce do que eu me lembrava, mas tambm mais firme e autoconfiante. Quase sexy. Deve ser porque ele est falando em ingls pensei. 
Me senti como se fizesse anos que eu ouvira um americano falando pela ltima vez.
    Mas apesar de tudo, claro que para mim a coisa mais Importante com relao a Ethan era o fato de ele ser o irmo de Jack. Ser amiga de Ethan me proporcionava 
a desculpa perfeita para continuar rondando Jack na manso dos Chandler.
    - Se voc se matriculasse no curso de francs eu poderia ajudar nas suas lies - sugeri, j me imaginando na casa dos Chandler vrias tardes por semana e pensando 
que assim Jack no poderia deixar de reparar em mim.
    - Acho que voc j est fazendo um timo servio me ajudando agora. Como se diz "oi"?
- Bonjour.
- E "voc est muito bonita"?
Ethan acabara de brecar num farol vermelho.
    - Bom, h duas maneiras. Se voc estivesse dizendo isso a uma amiga ntima, seria tu es trs belle. Mas a maneira mais formal  vous tes trs belle.
    - Tu es trs belle - repetiu ele, olhando diretamente nos meus olhos.
- Merci - agradeci, sentindo que ficava vermelha.
    Em todo o tempo que ns tnhamos passado juntos em nossas vidas, Ethan nunca me olhara daquele jeito. Subitamente eu me senti desconfortvel com aquela aula 
de francs. Quis mudar o assunto de volta para Jack.
    Becky no tinha conseguido me fornecer muitas informaes sobre como Jack passara o ano enquanto eu estava em Paris,  parte o fato de que ele ainda saa com 
Lydia Joyner de vez em quando. Quanto mais eu soubesse sobre Jack Chandler, mais chances de sucesso teria o meu plano de conquista. E eu queria colocar o meu plano 
em ao o mais cedo possvel.
    O farol abriu, e entramos numa rodovia movimentada. Felizmente aquele breve momento constrangedor entre Ethan e eu terminara num piscar de olhos, e cheguei a 
me perguntar se no teria sido tudo imaginao minha. Afinal, eu nunca tinha visto Ethan sem culos antes. Talvez aquele fosse o jeito como ele sempre tinha me olhado, 
e eu simplesmente nunca notara.
    Como o barulho do motor do jipe era muito alto para que pudssemos conversar, empurrei para o fundo a fita que j estava meio enfiada no toca-fitas - uma velha 
gravao de Eric Clapton - e subi bem o volume.
Em poucos minutos j estvamos nas familiares ruas de Winnetka: casas no estilo Tudor, grandes olmos, caladas de tijolos vermelhos, piscinas cercadas e quadras 
de tnis.
Quando partira de Winnetka um ano antes, eu me sentia deslocada ali. Afinal, como eu poderia me sentir pertencendo a uma comunidade cujos membros possuam casas 
com salas do tamanho de uma quadra de basquete? Onde as esposas nunca trabalhavam e usavam uniformes de tnis durante todo o inverno? Onde tirar frias dentro dos 
Estados Unidos no era de forma alguma considerado tirar frias de verdade? Onde era requisito bsico ter ao menos duas casas? Onde todo mundo ganhava um carro no 
seu dcimo sexto aniversrio e no tinha a menor dificuldade para pagar a anuidade escolar?
           Claro que eu no pertencia quele mundo.
           Meus avs haviam sido humildes empregados - um fato que Lydia Joyner tinha prazer em me lembrar o mais freqentemente possvel, de preferncia diante 
de um monte de gente -, mas eu me orgulhava muito de meu pai. Ele era um requisitado advogado ambientalista, razo pela qual sempre estava em viagens de trabalho 
lutando contra algum infame poluidor em alguma corte federal do pas. Papai tinha me ensinado que a quantidade de
dinheiro que temos no  to importante quanto a contribuio que damos para ajudar outras pessoas e para manter a Terra um lugar bonito e limpo. Eu duvidada muito 
de que Lydia Joyner comprasse esse argumento por um minuto sequer.
    Ethan parou no estacionamento do Depot e saltou para fora Jipe sem nem mesmo abrir a porta. Antes de eu ter tempo de afrouxar o meu cinto de segurana ele j 
tinha dado a volta at o meu lado.
    Deixei Ethan abrir a porta do jipe para mim. Duvido que ele tivesse feito aquilo por Gerolyn, mas por Gigi...
        Ethan segurou a porta aberta e eu sa caminhando na frente dele. Ao entrar, passeei a vista rapidamente pelas pessoas nas mesas. Mesmo apesar de Ethan ter 
me dito que Jack estava no treino de rgbi, no pude evitar procur-lo. Eu havia visto um monte de carros no estacionamento quando saramos do jipe, e no me surpreendeu 
constatar que a lanchonete estava mesmo apinhada de gente. Levei um bom tempo para checar todas as mesas.Tentei fazer aquilo de uma maneira espontnea e casual, 
pois no queria que Ethan suspeitasse o que eu estava procurando.
    Mas claro que Jack no estava l. Reconheci alguns garotos da escola. Havia tambm vrias famlias. De fato todas as mesas estavam cheias. O Depot tinha s um 
garom ou garonete por turno, e mais uma pessoa atrs do balco para controlar as comandas.
    -J que voc est com um pouco de pressa, por que simplesmente no pedimos uns milk-shakes pra viagem e vamos tomando no caminho? - sugeri.
    Ethan me deu um olhar agradecido, e nos dirigimos  rea de encomendas para viagem. Andrew Barnes, um snior que trabalhava com Ethan em um programa de monitoria 
de fsica, estava atrs do balco e tomou os nossos pedidos de dois milk-shakes de chocolate com bastante cobertura.
    Enquanto perambulava at perto da janela para dar uma olhadinha na rua, ouvi Andrew perguntar a Ethan:
- Quem  essa garota?
- Gigi - respondeu ele. - Quero dizer, Gerolyn Pelka.
- Bah, nem vem. Essa a no pode ser a Gerolyn.
    Eu me virei e encarei Andrew. E ento lhe lancei o meu sorriso misterioso.
-        Uau! - exclamou ele.
Obrigada, Paris, pensei em silncio.
    Eu no via a hora de encontrar Jack. Ele notaria a mudana. Eu tinha me tornado o tipo de garota que ele no podia ignorar.













Capitulo 3 - A primeira noite de Gigi



Ethan eu tomamos os nossos Milk-shakes at a ltima gota enquanto rodvamos rumo  escola. Eu estava justamente terminando o meu quando ele parou o jipe no estacionamento 
de l e desligou o motor. Pegou sua sacola de ginstica e saltou para fora do veculo. 
- Encontro voc mais tarde- gritou por cima do ombro, j correndo em direo  porta do vestirio. 
Andei at as arquibancadas e procurei um local em que pudesse tomar o suave sol do fim da tarde. Dali eu tambm tinha uma boa vista do treino de rgbi.
Onde est ele? Onde est ele? Meu corao batia acelerado enquanto eu protegia meus olhos da luz do sol com a mo direita e esquadrinhava o campo. Nada. E ento, 
de repente, captei um relance fugaz de um uniforme azul, e l estava ele. Jack Chandler, o garoto dos meus sonhos parisienses em carne e osso.
Ver Jack ao vivo depois de um ano inteiro olhando somente para seu retrato elevou a minha presso sangnea  estratosfera. Ele estava muito mais bonito agora do 
que um ano antes - algo em que eu teria achado difcil de acreditar se no tivesse visto com os meus olhos. Parecia um pouco mais alto e, embora fosse difcil dizer 
ao certo, j que ele estava com seu estofado uniforme de rgbi, ainda mais musculoso. Seu rosto ficara mais magro, mais amadurecido. Mesmo sendo um snior - s um 
ano mais velho que garotos da minha turma -, ele j parecia mais um de faculdade do que de colegial.
Fiquei observando Jack lanar alguns passes longos. Poucos minutos mais tarde, Ethan, vestindo seus cales de corrida e uma camiseta regata, surgiu correndo na 
direo de seu irmo. Ele parecia to magro e elstico perto de Jack!
Fique calma, pensei. Eu no podia deixar Jack ler o desejo em meus olhos. Isso arruinaria tudo. Lembrei a mim mesma que eu no era mais Gerolyn, aquela menina de 
quinze anos desesperada por qualquer demonstrao de ateno da parte de Jack, qualquer migalha que ele quisesse lanar. Agora eu era Gigi, uma tentadora jovem de 
dezesseis anos capaz de nocautear qualquer garoto, inclusive Jack Chandler - desde que ele pelo menos olhasse na minha direo.
Ethan estava dizendo algo a Jack, e ento apontou para mim. Dei um pequeno aceno. Pensei em tentar o meu sorriso misterioso, mas achei que a distncia era grande 
demais para que ele pudesse surtir qualquer efeito. Seja paciente, disse a mim mesma. Logo, logo, voc vai ter sua chance.
No precisei esperar multo. O treino tinha terminado, e Jack veio subindo pelas escadas da arquibancada. Ele tirou o capacete de proteo e penteou os cabelos molhados 
de suor com os dedos.
Fiquei feliz por estar sentada, porque Jack estava ainda mais bonito de perto que de longe? - e muito mais bonito do que na noite anterior  minha partida para Paris, 
quando beijara Lydia Joyner na beira da piscina...
Expulsei aquela imagem da minha mente e me concentrei em Jack Chandler tal como ele aparecia agora - agora que ele ia ser meu.
Seu rosto, com aqueles deslumbrantes olhos verdes, era perfeito. Seu corpo era musculoso, sem nenhum vestgio de gordura. E seu cabelo, h vrias semanas precisando 
de um corte, era sedoso e dourado como as areias de uma praia tropical banhada pelo sol. Qualquer garota daria tudo para poder passar seus dedos por eles.
- Mas esta no pode ser a Gerolyn Pelka que eu conheci certa vez - disse Jack com um sorriso.
Me senti como se fosse comear a derreter. Mas meu plano exigia que me mantivesse firme.
- Oi, Jack - cumprimentei num tom sereno e descontrado. E ento dei a ele o meu sorriso misterioso.
- Pode me chamar de Gigi.
- Gigi? Claro. Um belo nome - replicou Jack, sentando-se no banco em frente ao meu. - E fica muito bem em voc.
Pude sentir que, sutilmente, ele estava me avaliando. Provavelmente no queria ser cru e me olhar descaradamente de alto a baixo como faziam alguns dos garotos mais 
grosseiros da escola.
E pude sentir tambm que ele gostou do que viu. 
- E ento?... Me conte de Paris. Eu sempre quis ir, mas nunca houve uma boa chance.  mesmo uma cidade to bonita quanto dizem?
- Ainda mais - respondi, dando outro sorriso misterioso.
Ento lhe contei tudo sobre Paris e sobre minha viagem  Grcia.
Jack ficou me ouvindo sem dizer uma palavra, como se eu fosse a garota mais linda e mais interessante sobre a face da Terra. Ele riu quando contei que tinha pedido 
miolos de bezerro por engano em um restaurante. Estar com ele era ver meu sonho se tornando realidade. Vronique tinha razo: Jack Chandler ia ser meu.
- Ah, eu recebi aquele carto que voc me mandou - disse ele, quando eu j tinha contado tudo o que tinha para contar. - Foi muito legal da sua parte se lembrar 
de mim, especialmente considerando que voc estava to ocupada. Mas eu no sou nenhum grande escritor de cartas, sabe...
-Voc  mais um homem de ao - sugeri atrevidamente.   
- , gosto de pensar que sim. - Ele hesitou por um instante, e ento falou de novo. - Voc gostaria de ir ao cinema comigo hoje  noite?
- Adoraria - respondi com um sorriso.
 Meu plano estava funcionando a perfeio. 
                                                        ***

1 de setembro
Winnetka, Illinois
Querida Vronique,
Merci! Merci! Merci!
Nem tenho palavras para agradecer. Voc estava to absolutamente certa sobre tudo! Fazia menos de um dia que eu havia chegado aqui e j tinha um programa marcado 
com Jack Chandler.
No comeo fiquei decepcionada por ele no ter ido me esperar no aeroporto, mas seu irmo, Ethan, estava l. Acho que falei do Ethan para voc algumas vezes, no 
foi?
Ethan me levou para tomar um milk-shake e depois fui com ele at a escola, onde Jack estava treinando com um time de rgbi. Ele mal me reconheceu. Eu havia vestido 
aquele tailler preto que ns compramos juntas na Printemps e tinha me maquiado do jeito que voc me ensinou. E tenho certeza de que meu look estava fantstico, graas 
a voc.
Dei a Jack o meu sorriso misterioso, e ele imediatamente me convidou para sair. To fcil quanto voc disse que seria.
NO consigo acreditar na baita sorte que tive de ter voc como monitora. Voc no s me ajudou a passar em todas as provas da escola como mudou a minha vida! Vou 
ser eternamente grata.
Milhes de beijos e amor,
Gigi

PS: Gostaria tanto que voc estivesse aqui agora pra me ajudar a escolher a roupa pra sair com Jack hoje  noite! Vou escrever logo contando como correu tudo.

Terminei a carta para Vronique e me joguei na minha cama.
O que eu deveria vestir?
Com certeza uma das minhas roupas parisienses. Na verdade eu no podia nem me imaginar usando alguma das minhas velhas roupas americanas. Elas eram todas muito Gerolyn. 
S as minhas roupas francesas pareciam adequadas a Gigi,  nova eu.
Finalmente me decidi por um dos meus conjuntos preferidos de Paris, uma saia curta azul-marinho com uma colorida camiseta bordada e um cinto bordado com as mesmas 
cores da camiseta.
Passei um pouco do p-de-arroz que Vronique tinha comprado para mim e um batom vermelho claro. Vronique me dissera para eu me concentrar sempre em apenas um ou 
dois elementos - os lbios, as maas do rosto ou os olhos. Ficava mais natural e mais expressivo do que usar um monte de maquiagem tentando realar tudo ao mesmo 
tempo.
A campainha soou, e eu desci apressada. Antes de abrir a porta, parei por um segundo e respirei fundo, me esforando para esconder a excitao que naquele momento 
tomava conta de mim completamente. Abri.
- Oi, Jack.

Jack ficou l de p no nosso patamar de entrada, esttico. Ele vestia cala bag cor-de-oliva e uma camiseta plo bege. Seu cabelo estava molhado, e eu pude sentir 
um doce aroma de xampu. Ele estava simplesmente perfeito. 
- Bonjour! - replicou Jack com os olhos cintilando. - Voc est linda.
 - Obrigada - eu disse, com a cabea rodopiando.
 Tive vontade de me beliscar para ter certeza de que no era um sonho. Eu estava realmente, de verdade, saindo com Jack Chandler! 
Peguei minha bolsa e segui Jack at o Miata vermelho conversvel de sua me, um carro esportivo e sensual, perfeito para algum como ele.
- Voc se importa se a gente andar com a capota abaixada?  - A noite est to bonita...
- Claro - respondi. - Adoro sentir o vento batendo no meu rosto. 
 Isso sem falar no meu cabelo. A brisa com certeza o jogaria para trs dando a Jack perfeitas condies de visibilidade para admirar as minhas mechas douradas. E 
alm do mais eu estava louca para que algum da escola me visse com Jack. Afinal, quem no repararia em um conversvel vermelho berrante? 
Sorri ao ver que Jack estava dando a volta para abrir a porta para mim.
 - Achei o carro um pouco lento hoje - comentou, se inclinando para checar os pneus traseiros. - Quero ter certeza de que no vamos ser surpreendidos por um pneu 
furado.
Fiquei olhando ele apertar a borracha do pneu com o dedo.
- Nada - disse ele, se levantando e voltando para a sua porta sem se lembrar de abrir a minha. - Parece que est tudo em ordem.
- Hum... ainda bem - comentei, levemente decepcionada com o esquecimento dele.
Mas desencanei imediatamente. Afinal, o que havia demais em abrir eu mesma a porta do carro? Eu era uma mulher sofisticada agora. Podia me dar ao luxo de dispensai 
certas formalidades machistas.
Sorri para mim mesma. Programa nmero um com Jack Chandler, l vamos ns! Me ajeitei no assento e samos rodando rumo ao Multiplex, o maior complexo de salas de 
cinema de Winnetka.
No caminho Jack me entreteve com histrias da Winnetka High School que tinham ocorrido no ano em que eu estivera fora: o rato na cantina, os extremamente pblicos 
divrcio e re-casamento de um dos diretores da escola com uma jovem professora-assistente, e a segunda vitria de Winnetka Warriors - o time de rgbi de Jack - no 
campeonato contra o Saint John, o nosso velho arqui-rival.
Enquanto ouvia as histrias de Jack me dei conta de que ele no s era o garoto mais bonito de Winnetka como tambm o mais divertido e agradvel. No surgia nenhum 
daqueles tpicos momentos constrangedores em que ningum tem nada a dizer e de repente os dois comeam a falar ao mesmo tempo e a discutir sobre quem deve falar 
primeiro.
Quando paramos no estacionamento do Multiplex, eu j estava plenamente convencida de que sempre tivera razo - mesmo com Becky Cohen, minha melhor amiga sobre a 
Terra, tentando o tempo todo me convencer do contrario: Jack e eu ramos feitos um para o outro. amos ser o casal nmero um de Winnetka naquele ano, e todas as 
garotas da Winnetka High School me invejariam quando Jack encostasse seu carro todas as manhas no estacionamento da escola comigo no assento do passageiro. Eu mal 
podia esperar para ver a expresso de perplexidade no rosto de Lydia Joyner.
Jack me deixou escolher o filme, e optei por um francs que tinha assistido em Paris. Era um filme muito romntico, perfeito para a nossa primeira sada. Quando 
eu o vira pela primeira vez, imaginara que Jack e eu ramos os jovens amantes protagonistas afastados pela Segunda Guerra Mundial e finalmente reunidos aps muitos 
dolorosos anos de separao.
Nos sentamos na ltima fileira. Logo que os trailers comearam, Jack sussurrou no meu ouvido.
- No consigo acreditar que voc estava to perto durante todos esses anos, literalmente no fundo do meu quintal, e que tenha levado todo esse tempo pra gente encontrar 
um ao outro.
Demorou todo esse tempo pra voc me encontrar, corrigi mentalmente.
Quando as luzes se apagaram, Jack escorregou seu brao pelo encosto da minha poltrona. Durante os comerciais senti sua mo roar levemente em meu ombro. No primeiro 
momento me enrijeci com o toque. Eu tinha esperado praticamente a minha a minha vida toda por aquele momento, e estava nervosa demais para me sentir totalmente  
vontade em um programa real com Jack Chandler. Agora que ele entrara em ao e comeara a conquistar terreno, eu me sentia petrificada.
Mas logo me dei conta de que aquilo era apenas a velha Gerolyn reagindo.
Tentei  imaginar como Vronique se comportaria numa situao parecida. Ela provavelmente j estaria esperando que seu companheiro a tocasse. E desejaria que ele 
o fizesse. Relaxaria ao toque e curtiria o momento. E. foi exatamente o que eu tentei fazer.
Me inclinei contra o ombro de Jack. e ele, parecendo encorajado pela minha reao, comeou a brincar com o meu cabelo. Fique feliz por ter deixado meu cabelo secar 
naturalmente depois de t-lo lavado com xampu e condicionador: agora ele estava suave e sedoso em vez de duro e grudento por causa de algum gel ou musse. Os dedos 
de Jack comearam a acariciar meu pescoo e logo deslizaram mais para baixo, para esfregar meus ombros em uma delicada massagem.
Apesar do muito que eu tinha sonhado sobre como seria um romance entre mim e Jack, nunca poderia ter imaginado que me sentiria como agora, que a coisa estava acontecendo 
de verdade. No primeiro instante seu toque foi como um cabo de alta-tenso na minha pele nua. Me fez estremecer dos ps  cabea e colocou meu corao em disparada. 
Mas depois, quando relaxei, foi como estar deitada numa praia com o suave calor do sol acariciando todo o meu corpo.
O filme comeou, e nos sentamos direito para assistir. Mas as pessoas que estavam sentadas na nossa frente eram muito altas, e no conseguamos ler as legendas. 
Jack no sabia o que as personagens diziam, e comecei a sussurrar uma traduo simultnea no ouvido dele. Seu cabelo ainda cheirava a xampu, e tambm pude captar 
um vestgio de loo ps-barba em seu rosto.
A um certo ponto ele virou a cabea justo quando eu me inclinava para traduzir uma cena de amor, e seus lbios roaram nos meus.
No foi exatamente um beijo. Foi mais um acidente, as nossas bocas passando pelo mesmo lugar ao mesmo tempo.
Me pegou com a guarda baixa, totalmente desprevenida, e fiquei to atordoada que no consegui sentir nada. Eu sempre tinha imaginado que meu primeiro beijo com Jack 
seria um evento apotetico, algo assim como um terremoto de oito graus na escala Richter.
Mas no fora nada parecido. Talvez as minhas expectativas fossem grandes demais. Claro, aquilo no tinha sido um beijo de verdade, lembrei a mim mesma quando Jack 
voltou o rosto de novo para a tela. Tentei no ficar decepcionada. Mas fiquei.

- E ento, o que voc achou do filme? - perguntei quando os crditos j rolavam pela tela do cinema.
- Acho que teria feito mais sentido se eu entendesse francs - respondeu ele com um sorriso.
- Minha traduo no estava boa o suficiente?
- Tenho certeza de que estava. S que simplesmente eu no conseguia me concentrar no filme com voc respirando no meu ouvido.
- Sinto muito se distrai voc - repliquei brincando. - Da prxima vez vamos nos sentar perto da tela pra voc poder ler as legendas.
- No se eu puder evitar - devolveu ele com um sorriso malicioso, quando j entravamos no conversvel.
Fiquei pensando a respeito de como os nossos lbios haviam se tocado. Como  que eu podia no ter sentido nada? Jack era lindo de morrer, incrivelmente charmoso, 
e eu fora apaixonada por ele praticamente desde sempre. Devia ter sido culpa minha. Com certeza eu ainda no estava pronta para aquilo. Mas da prxima vez estaria.
- O que voc acha de um sorvete no Depot? - ele sugeriu.
- tima idia.
Por alguma razo eu no quis dizer a Jack que tinha ido ao Depot com seu irmo naquela mesmssima tarde. Eu no sabia por que, pois no havia nada de errado em dois 
amigos - vizinhos - irem tomar um sorvete juntos. Acho que simplesmente eu no queria mencionar o nome de Ethan enquanto estivesse com Jack. No queria que ele me 
visse como a garotinha que havia brincado com seu irmo desde pequena. Aquela era Gerolyn, e agora eu era Gigi.
O Depot estava lotado, para variar. Reconheci algumas pessoas e, claro, todos os que eram do nosso colgio tinham que vir dizer um oi a Jack. Um garoto ficou me 
encarando enquanto eu passava at sua parceira lhe dar um cutuco com o cotovelo para chamar sua ateno de volta para ela. Reparei que um par de meninas, duas seniores, 
me olharam com inveja.
Quatro rapazes do time de rgbi devoravam sundaes duplos.
- Ei, Jack, cara! - disse um deles, vindo para cima de Jack. - Quer se sentar com a gente?
Senti o meu territrio ameaado. Era a minha primeira sada com Jack, e eu queria que fosse a nossa noite. Jack e eu, sozinhos. No queria de jeito nenhum dividir 
aquele momento com um bando de atletas brutamontes falando o tempo todo de bloqueios, passes e pancadas.
Felizmente Jack pareceu ler os meus pensamentos.
- Fica para outra vez, parceiro. A gente se v amanh - disse ele, me conduzindo em direo a uma mesa que acabava de ficar vaga no fundo da lanchonete.
Demorou pelo menos quinze minutos para a garonete vir nos atender. E eu sabia que seria no mnimo mais meia hora at os nossos sorvetes chegarem.
Mas e da?
Eu estava exatamente onde queria estar: No meu primeiro programa com Jack, o garoto mais lindo e atraente do estado de Illinois.

- E a, como foi? - perguntou Becky no dia seguinte.
Era sbado de manh, e eu podia visualiz-la deitada em sua cama com o telefone sem fio apertado forte contra a orelha.
- Como foi? Bom, tomamos os nossos sundaes e depois ele me levou de volta pra casa - respondi com uma risadinha maliciosa. 
- No me venha com essa, garota! - ralhou Becky, tambm brincando. - Ele beijou voc ou no?
- Fora aquele semibeijo no cinema, no.
- Ah... - disse Becky, parecendo decepcionada.
- Acho que ele at queria quando chegamos na porta da minha casa, mas no dei chance. Parte do meu plano  bancar a difcil. Alm do mais, eu temia que se comessemos 
a nos beijar eu pudesse perder o autocontrole, e ai a sofisticada Gigi desapareceria numa nuvem de fumaa deixando no lugar a simples e velha Gerolyn.
- E quando voc vai ver ele de novo? - perguntou Becky.
- Bom, ele me convidou para sair de novo hoje, mas eu disse que queria passar a noite com o meu pai. Acho que isso o chocou. Provavelmente Jack nunca teve um convite 
seu recusado por uma garota.
- Uau! Mal consigo acreditar que a minha melhor amiga est saindo com Jack Chandler.
Eu ri.
- D um tempo, Becky, assim voc faz a coisa soar como se eu estivesse saindo com uma estrela de cinema ou algo parecido.
O bipe do telefone soou - o som de outra chamada na linha - e pedi a Becky para esperar enquanto eu alternava para a outra chamada. Era Jack. Voltei para Becky e 
me despedi dela rapidamente.
- Gigi - comeou ele com uma voz ainda mais sexy que de costume - eu se que h esse jantar com o seu pai hoje, mas no consigo tirar voc da minha cabea. Fiquei 
pensando se no estaria a fim de dar uma passada aqui depois do jantar, s para me dizer boa-noite. No importa a hora.
- Mas Jack, eu nem sei a que horas a gente vai voltar do restaurante, e...
Bancar a difcil estava ficando cada vez mais difcil.
- No tem importncia. Vou ficar esperando.

Papai me levou ao meu restaurante chins favorito. Foi uma delicia me sentir de volta em casa e estar com meu pai, mas minha mente continuava vagando de volta  
imagem de Jack me esperando na varanda da piscina.
Era tarde quando chegamos em casa, e papai foi direto para a cama.
Eu subi as escadas como se estivesse indo dormir e esperei at que ele apagasse a luz do quarto. Ento passei rapidamente um pouco de batom, ajeitei o cabelo e me 
esgueirei para fora da casa.
Encontrei Jack esperando por mim em uma das espreguiadeiras ao lado da piscina. A nica luz era a que vinha da lua e das velas que ele tinha colocado sobre uma 
das mesas. 
Jack se levantou de u salto quando me viu.
- Estou contente por ter vindo - ele disse, pegando a minha mo.
Uma msica lenta e suave escoava dos alto-falantes embutidos no deque.
- Eu adoro essa cano. Voc gostaria de danar?
Fiz que sim com um gesto de cabea.
Jack me puxou para perto de seu corpo, e comeamos a danar.
- Voc  to linda, Gigi - murmurou Jack no meu ouvido. - Nunca senti nada assim por nenhuma garota.
Ele estava dizendo exatamente o que eu queria que dissesse. O que eu sempre tinha sonhado ouvir dele. Por fim eu estava em seus braos, danando ao luar.
As velas tremeluziam com a brisa. Era muito mais romntico do que eu jamais poderia ter imaginado. Levantei a vista para os olhos verdes de Jack e senti meus joelhos 
amolecerem. Ele ergueu meu queixo com a mo e se inclinou para mim. Pude sentir seu hlito de menta uma frao de segundo antes de seus lbios tocarem os meus.
Mas subitamente a varanda foi banhada por uma luz intensa.
- Ooops! H... me desculpem.
Era Ethan.
Jack ficou to surpreso quanto eu. Ele se distanciou um pouco do meu corpo e logo senti seus braos se soltarem de mim.
- Ethan! Qual  o problema, cara?
- Escutei vozes e pensei que podiam ser ladres - respondeu Ethan. - Desculpem se eu interrompi alguma coisa.
Jack lanou ao seu irmo o olhar mais maligno de que era capaz, mas Ethan pareceu indiferente  hostilidade estampada no rosto de Jack.
- Oi, Gigi - cumprimentou ele com um sorriso.
- Oi, Ethan.
Jack me enlaou novamente com seus braos, mas de alguma forma as luzes intensas e a sbita apario de Ethan tinham mudado o me estado de esprito. Um momento antes 
Jack estivera a ponto de me beijar. Chegara at a mordiscar meus lbios. Eu tinha esperado uma eternidade por aquele instante, e podia dizer com toda a segurana 
que Jack estava pronto para retomar de onde tnhamos parado - mesmo com Ethan de p l olhando.
Mas eu me sentia envergonhada por Ethan ter pego a gente em flagrante, invadida por um fluxo de emoes que no conseguia compreender. Mesmo estando louca para beijar 
Jack como estava - e para que ele me beijasse - eu no gostava nem um pouco da idia de ter um pblico, muito menos Ethan.
- Te-tenho de ir agora - gaguejei, me desvencilhando dos braos de Jack.
Ento me virei abruptamente e corri para casa.
Quando cheguei no meu quarto, no andar de cima, mantive a luz apagada e olhei pela janela. Ouvi Jack e Ethan discutindo, mas no dava para escutar o que eles diziam. 
De repente a discusso parou e Jack, enfurecido, entrou tempestuosamente na casa. Ethan se deitou em uma das espreguiadeiras. Eu vesti o meu pijama e fui para o 
banheiro escovar os dentes.
Ethan ainda estava deitado na varando da piscina quando eu fui para a cama.
 



















Capitulo 04 - O grande baile


3 de setembro
Winnetka

Querida Vronique, 
Eu no achava que estaria to cedo escrevendo de novo a voc, mas aconteceu uma coisa ontem  noite. Eu adoraria poder telefonar para contar pessoalmente e conversar 
a respeito. Foi tudo to confuso... Mas meu pai teria uma sincope se eu ligasse para Paris logo depois de ter voltado. Por isso achei melhor escrever.
Na noite de ontem, depois de jantar com meu pai, dei uma passada na casa de Jack para v-lo. Danamos um pouco sob o luar, e Jack estava a ponto de me beijar quando 
Ethan - de quem falei a voc na minha ltima carta - acendeu as luzes. 
No foi exatamente a interrupo o que me incomodou. Foi o quanto me senti acanhada pelo fato de Ethan me ver junto com Jack.  normal? Quero dizer, ser que existe 
alguma explicao razovel para o fato de eu me sentir inibida desse jeito? Foi como se o Ethan tivesse pego a gente fazendo algo de errado. Mas o que poderia haver 
de errado em beijar o garoto dos meus sonhos? 
Escreva logo e me diga o que voc acha. 
Sinto muito a sua falta! 
Com amor, 
Gigi

Me senti melhor quando terminei minha carta para Vronique. Mesmo sabendo que iria  demorar  vrios dias para receb-la e provavelmente mais de uma semana at eu 
receber a resposta dela com seu precioso conselho, somente o fato de escrever a respeito do que eu  estava  sentindo j  me ajudou bastante.
Quando acordei na manh seguinte me dei conta de que tinha sonhado a noite inteira com Jack. Com os beijos de Jack. Com o que teria acontecido se Ethan no tivesse 
nos interrompido. Foi to real! Um daqueles sonhos vividos, colorido. Um sonho maravilhoso - mas no to maravilhoso quanto a realidade em breve seria.
Enquanto continuava deitada na cama revivendo os meus sonhos, escutei o motor de um carro sendo acelerado l fora. Olhei pela janela bem a tempo de ver Jack indo 
embora no jipe, com seu equipamento de windsurfe amarrado no bagageiro. Provavelmente ele passaria o resto do dia fora, no lago.
Talvez eu conseguisse achar um pretexto para convencer papai a dar um pulo ao lago comigo, um piquenique por exemplo. Mas quando desci para o andar de baixo encontrei 
um bilhete dele dizendo que surgira uma reunio inesperada naquela manh. Tambm encontrei um copo de suco de laranja fresco na geladeira. Velho e bom papai.
Bebi meu suco e voltei para a cama. Vronique sempre enfatizara a importncia do sono na manuteno da beleza. E esse era o nico tratamento de beleza que eu podia 
bancar.

Segunda-feira de manh, o primeiro dia de aula, foi um caos. Todo mundo se abraando e beijando como se no tivessem se visto durante anos. Becky e eu caramos na 
mesma classe de novo - graas a Deus - apesar de que a muitas aulas ns assistiramos em salas diferentes. Mas tnhamos passado a maior parte da tarde de domingo 
juntas vendo fotos da minha viagem e conversando sobre adivinhem-quem, de maneira que j no tnhamos mais uma tonelada de conversa atrasada para pr em dia.
A sra. Van Bearle deu vrios avisos a respeito das novas regras da escola: nada de jeans rasgados, nada de camisetas regata - tanto meninos quanto meninas - e nada 
de minissaias. Alguns garotos da fileira do fundo gemeram de desgosto. A sra. Van Bearle sorriu para eles. Ela era uma professora legal.
- E tenho mais um aviso pra dar - continuou. - O time de rgbi da escola vai promover um baile no prximo sbado  noite.
Becky e eu nos olhamos e sorrimos uma para a outra.
- Isso  tudo, gente - terminou a sra. Van Bearle, justamente quando soava o sinal do primeiro perodo. 
Logo que Becky e eu nos despedimos e seguimos nossos respectivos caminhos para duas das vrias aulas a que assistiramos em classes diferentes, me perguntei se Jack 
iria me convidar para o baile. Claro que vai, disse a mim mesma, na esperana de que fazendo aquela afirmao ela automaticamente se tornaria realidade.

Ao chegar da escola naquela mesma segunda-feira encontrei um envelope no cho com meu nome impresso preso debaixo da porta de entrada da minha casa. Reconheci imediatamente 
o timbre dos Chandler na frente do envelope e o rasguei afobada.
Dentro havia um carto de convite, desses de papelaria, com apenas uma linha escrita:

A gente se v hoje  noite? 7h30? Fico espetando, no mesmo lugar...
Jack

Que romntico!
Talvez pudssemos retomar tudo exatamente de onde tnhamos parado quando Ethan nos interrompera no sbado  noite.

Depois do jantar subi para o meu quarto e vesti um casaco leve e uma saia longa e esvoaante. Imaginei como a saia iria se abrir nas fendas laterais quando eu girasse 
o corpo. Papai estava to concentrado em seu trabalho no computador que nem levantou a vista quando eu disse que ia dar um pulinho na casa dos Chandler.
Quando atravessei o grande quintal que separava nossa casa da manso fiquei aliviada ao ver que o jipe no estava em seu lugar habitual. Torci para que aquilo significasse 
que Ethan tinha sado. Talvez Jack tivesse deixado claro a Ethan que ele devia se manter longe da piscina. Era o que eu queria: nada de interrupes, s Jack, eu 
e o luar.
Jack estava me esperando, como disse que estaria. Mesmo tendo crescido na casa ao lado da dele, mesmo tendo-o visto ano aps ano, eu ainda fitava perplexa com o 
quanto era bonito. Quando Jack sorriu para mim, senti meu corao dar uma batida em falso.
- Fiquei com receio de que voc no viesse - ele disse, levantando-se da espreguiadeira. - Achei que talvez voc no encontrasse o bilhete... e eu iria passar uma 
noite muito solitria sem a sua companhia.
No momento seguinte Jack j estava me tomando em seus braos. Ento senti o delicado toque de seus lbios.
Esperei a Terra parar de girar sobre seu eixo.
Esperei o cho comear a tremer.
Esperei...
Mas aquele no ela o beijo com o qual eu tinha sonhado tantas e tantas vezes.
Na verdade beijar Jack na vida real no era nem de longe o que eu imaginara. Eu sempre tinha pensado que me derreteria completamente em seus braos, que o tempo 
pararia. Mas em vez disso, quando seus lbios tocaram de leve nos meus a nica coisa que senti foi um forte sabor de vitria. Minha hora finalmente tinha chegado. 
Jack Chandler estava me beijando!
Mas no havia fogos de artifcio, nem estrelas, nem arrepios. Apenas uma sensao de agradvel calidez que ia da ponta dos dedos dos meus ps at o topo da minha 
cabea.
Claro que eu no tinha beijado muitos garotos antes de Jack. E tampouco nenhum daqueles beijos tinha sido capaz de fazer a terra tremer. Talvez um beijo fosse, no 
fim das contas, simplesmente aquilo e nada mais.
Eu precisava escrever logo a Vronique e perguntar se era isso mesmo.

A primeira semana de escola voou. Becky e eu tivemos muitas aulas juntas e algumas separadas, mas nos vimos todos os dias na hora do almoo. Vi Jack na maioria das 
tardes. Ele me levou para jantar fora em uma noite, para jogar boliche na seguinte, e outra delas ns passamos danando ao luar na varanda da piscina.
Foi sem dvida a semana mais romntica de toda a minha vida at ento. Mas durante todo o tempo que Jack e eu passamos juntos, em nenhum momento ele me convidou 
para o baile nem mencionou o assunto. Eu me perguntava se ele tinha simplesmente dado por certo que ns dois iramos oficialmente como um casal, agora que estvamos 
passando tanto tempo juntos, ou se ele havia se esquecido do evento.
Durante a semana vrios garotos tinham me perguntado se no queria ir com eles, e eu havia recusado todos os convites, quando a sexta-feira foi se aproximando comecei 
a me perguntar se no teria sido um erro. Se Jack no me convidasse eu ficaria encalhada, sem acompanhante. E eu no queria que ele pensasse que eu no era capaz 
de arranjar um companheiro para o baile.
Morri de vontade de poder falar com Vronique a respeito de tudo aquilo. Ela era to mais experiente do que eu... Com certeza saberia o que fazer.
Na sexta de manha eu j entrara em pnico. Ser que Jack seria capaz de fazer a cachorrada de convidar outra garota para o baile depois de termos passado praticamente 
todas as tardes daquela semana nos braos um do outro? 
Cheguei atrasada na aula. Becky j se encontrava na sala, e eu ocupei minha carteira de sempre ao lado da dela. A expresso do meu rosto j dizia por si s tudo 
o que eu estava sentindo.
- Ento ele ainda no convidou voc... - disse Becky, solidria.
- No, mas o dia ainda no acabou - repliquei esperanosa.
Eu devia estar realmente fora de mim, porque nem percebi que a sra. Van Bearle tinha nos dispensado at sentir Becky puxando a minha manga.
- Vamos, acorde - disse ela. - T no mundo da lua, ? 
Eu sorri.
- A gente se v logo mais na cantina - falei, enquanto deixava a enxurrada de alunos me carregar para o saguo.

Os seniores tinham um horrio de almoo diferente dos juniores, de maneira que fiquei surpresa ao ver Jack na cantina algumas horas mais tarde. 
O nvel de decibis caiu subitamente no recinto quando ele comeou a abrir caminho por entre as mesas na direo da nossa e se sentou ao meu lado. Pude sentir os 
olhos de todo mundo se dirigindo a mim quando Jack passou seu brao por cima dos meus ombros.
- Eu sei que j  meio tarde para perguntar isto - disse ele - mas gostaria muito que voc fosse ao baile comigo amanha  noite.
Quase gritei um "sim!", mas me lembrei a tempo que meu plano pedia que eu fosse mais indiferente. Afinal, Jack no devia ter esperado at a vspera do baile para 
me convidar.
- No sei no... Vrios garotos j me convidaram... - comecei, observando o rosto dele se franzir numa expresso tristonha -... mas recusei todos os convites.
Jack sorriu, e eu percebi que gostava de jogar aquele jogo.
- Recusei todos porque Becky e eu j tnhamos planos de ir ao cinema.
O rosto dele se enrugou de novo, e uma onda de triunfo percorreu meu peito. Jack ficara realmente decepcionado.
De repente senti uma dor aguda na minha canela. Becky tinha me chutado, e forte.
- Mas acho que a gente pode ir ao cinema numa outra noite qualquer, certo, Becky? - completei com um sorriso.
- Ento isso significa que voc aceita ir comigo ao baile? - perguntou ele, abrindo um amplo sorriso.
- , significa exatamente isso.
- Grande! Ento pego voc s oito na sua casa. A gente se v amanh, Gigi.
Jack se levantou e deu um pique at a porta de sada da cantina. Cerca de cem pares de olhos, incluindo os meus, o seguiram.

- No consigo acreditar nestes vestidos! So o mximo! - guinchou Becky enquanto olhava uma a uma minhas aquisies parisienses. - Nunca vi nada igual por aqui!
Era o fim da tarde de sbado, e Becky e eu estvamos tentando decidir o que vestir para o baile daquela noite. Becky iria com mais duas outras meninas que no tinham 
parceiros. Muitos garotos estavam indo sozinhos, e Becky no ia ficar em casa s porque ningum do sexo oposto a havia convidado.
- Posso mesmo pegar um destes emprestado pra hoje  noite? Voc  a maior e melhor amiga do mundo, Gigi!
Becky suspendia um vestido aps o outro enquanto falava, diante do grande espelho do meu quarto.
Eu j tinha escolhido a roupa que queria vestir. Era um vestido preto insinuante e vaporoso, com certeza mais elegante do que as roupas que a maioria das garotas 
estaria usando. Eu queria parecer diferente, sofisticada, especial, e sabia que Jack iria apreciar isso - afinal, ele tambm era um cara sofisticado.
- Acho que nesta noite vou ser a mulher de vermelho - disse Becky, erguendo uma minissaia de seda vermelha. - Quero atrair a ateno de certa pessoa nesse baile.
- Ah. ? E quem  o sorrudo? - perguntei, embora j tivesse uma boa idia de quem era.
Antes da minha viagem para a Frana, Becky e eu tnhamos feito listas dos dez meninos mais bonitos da escola, os dez mais inteligentes e os dez mais divertidos. 
E Andrew Barnes tinha aparecido nas melhores posies nas trs listas de Becky.
- Sabe - confessou Becky, mordendo o lbio -, eu acho que o Andrew  s um pouco tmido. Provavelmente eu mesma deveria ter convidado ele pro baile, mas me acovardei.
O telefone tocou. Esperei at a terceira chamada para atender. 
- Al? 
- Oi, Gigi.  o Jack.
- Oi, Jack - respondi, com um tom de quem est acostumada a receber telefonemas de garotos deslumbrantes.
- Eu... h...  que no vou poder pegar voc hoje, Gigi - disse Jack. - Realmente sinto muito, muito mesmo, mas desloquei o tornozelo jogando rgbi e tenho de ir 
ao mdico pra enfaixar. A gente se encontra no baile, ok? O Ethan vai passar a pra pegar voc no meu lugar.
- No precisa no, Jack. Posso perfeitamente pegar uma carona com Becky e as meninas.
- No, por favor, estou me sentindo pssimo com isso tudo. Deixe o Ethan levar voc por mim. Ele vai ser uma tima companhia at eu chegar. Alm do mais, no quero 
que voc seja seqestrada por nenhum outro antes que eu chegue.
- Mas o Ethan j no tem uma companheira pro baile?
- T brincando? O Ethan, companheira?
Eu podia imaginar facilmente um monte de garotas que teriam adorado ir ao baile com Ethan se ele as tivesse convidado. Mesmo sendo um pouco tmido e quieto. Ethan 
era interessante de se conversar uma vez que o papo engrenava e ele se soltava.
Mas se Jack queria tanto que Ethan me levasse ao baile, para mim estava timo.

- E ento, o que voc acha? - perguntou Becky algumas horas mais tarde, desfilando no meu quarto.
Ns j tnhamos feito o cabelo e a maquiagem, mas Becky continuava angustiadamente indecisa com relao  sua roupa.
Me lembrei do que Vronique me ensinara sobre o uso de acessrios. Peguei um cinto de outro vestido, preto e largo, e o passei a ela.
- Olhe aqui, experimente isto.
O cinto deu a coeso que faltava ao conjunto e assentou tudo perfeitamente no corpo dela. Becky rodopiou na frente do espelho, e a saia se abriu esvoaando.
- No vai ter jeito do Andrew Barnes resistir a voc nesta noite - falei.
- Tem certeza de que ficou bom? - perguntou Becky, com a insegurana estampada no rosto.
- Absoluta. Voc est fantstica - assegurei. - Quando o Andrew vir voc, o choque vai ser to violento que ele no vai nem saber o que o nocauteou.
- Ah, faltam os brincos! - exclamou Becky com um tom de urgncia, saqueando minha caixinha de bijuterias at encontrar o par que estava procurando. - Posso pegar 
estes?
Enquanto ela ainda lutava com os fechos dos brincos, escutamos a buzina do jipe de Ethan. Eram oito da noite em ponto.
Becky me desejou boa sorte com Jack quando a campainha soou, e ns duas descemos a escada correndo. Meu pai abriu a porta e deu de cara com Ethan l parado segurando 
uma pequena embalagem de plstico de uma floricultura. Ele vestia jeans pretos, uma camisa de botes e um palet italiano - e estiva simplesmente um gato.
Eu parei e olhei, com a respirao presa.
- Ai, ai, ai, menina do cu! - sussurrou Becky atrs de mim. - Gigi, acho que voc se amarrou no irmo errado.
Ethan fazia a elegncia parecer algo absolutamente natural. Mesmo quando ele penteava os cabelos com os dedos, aquele gesto no me fazia pensar "mas que cara vaidoso!", 
como eu geralmente pensava ao ver um garoto fazer aquilo na minha frente. Em vez disso,  me peguei  imaginando como seria a sensao de passar os meus prprios dedos 
pelo meio daqueles cabelos macios e sedosos. E quando ele inconscientemente ajeitou os punhos de sua camisa, achei que aquele era o gesto mais sexy que eu jamais 
tinha visto.
Pare com isso!, eu disse a mim mesma, me reprimindo. Jack est esperando por voc.
        
Senti uma sensao estranha na garganta, e fiquei com receio de falar. Sorri, meio que testando Ethan para ver se ele estava bravo comigo pelo fato de eu ter tomado 
sua noite - uma noite que ele provavelmente teria preferido passar estudando e lendo.
Ele retribuiu o sorriso, apenas o suficiente para me mostrar que tudo iria correr bem.
Devo ter ficado parada no p da escada por um bom tempo. S cai em mim quando senti Becky me empurrando para a frente.
-  Fico contente por voc estar indo com Ethan ao baile, Gerolyn - disse meu pai, animado. - Tenho certeza de que voc vai ter uma tima noite.
-  Ela no est indo exatamente comigo, senhor Pelka - corrigiu Ethan. - Na verdade est indo com Jack.
Meu pai pareceu perplexo ao ouvir aquilo. Olhou de Ethan para mim e de novo para Ethan, perdido.
-  Jack deslocou o tornozelo - explicou Ethan educadamente - e me pediu para levar Gerol... Gigi ao baile por ele.
- Ah, tudo bem... suponho - aprovou meu pai lentamente, tirando seus culos de leitura do rosto. - Bom, ento divirta-se com Jack, filha.
Ethan me entregou a caixinha da floricultura. Dentro havia uma orqudea branca com um fita vermelha amarrada nela. Era para ser usada como um ramalhete preso ao 
ombro.
- Hum, obrigada...  do Jack?
- Tenho certeza de que Jack teria comprado flores pra voc se fosse ele quem a estivesse levando ao baile - disse Ethan. - Por isso achei que eu devia fazer o mesmo... 
Em nome dele, quero dizer.
-  Gostei muito disso, Ethan. Foi muito delicado da sua parte... Ou da parte de Jack - agradeci enquanto acariciava com suavidade a bela orqudea branca. - Mas me 
sinto mal por estar estragando a sua noite. Se voc preferir ficar em casa, vou entender perfeitamente. Posso pegar uma carona com a Becky e...
Ethan sacudiu a cabea, me interrompendo.
- De jeito nenhum. Eu disse ao Jack que levaria voc, e no sou de faltar  minha palavra.
Meu pai limpou seus culos com a manga da camisa. Eu sabia que ele ainda estava totalmente confuso.
E mais uma vez, eu tambm estava.
Por que Ethan fazia aquilo tudo por seu irmo, em nome dele? Por que Jack achava que eu tinha de ter um "acompanhante" para ir ao baile se eu era a garota dele? 
Certamente havia um bocado de coisas a respeito de Jack e Ethan que eu ainda no compreendia. Talvez isso se devesse ao fato de ser filha nica e no saber muito 
bem o que  ter um irmo ou uma irm. Talvez tudo aquilo fosse apenas algo normal entre irmos.
- Venha Gigi, me deixe prender isso no seu ombro - disse Becky tomando a orqudea da minha mo. - Vocs precisam se apressar se no quiserem chegar atrasados, e 
eu tenho de pegar a Mandy e a Ellen daqui a dez minutos.
Ela se alvoroou com a flor, o alfinete e a ala do meu vestido enquanto Ethan e eu olhvamos um para o outro. Seus olhos me pareceram indecifrveis.
- Gerolyn, confesso que estou meio perdido - disse meu pai. - Voc vai ao baile com Jack, mas  Ethan quem est aqui agora. Ento... quem vai trazer voc de volta 
pra casa?
- H... bom, eu pego uma carona com... h...
- Eu a trago pra casa, senhor Pelka, no se preocupe - disse com firmeza.
-  Ou talvez o Jack me traga! - falei abruptamente.
-  Tudo bem, Gerolyn. Eu s quero que voc volte em segurana - disse meu pai.
-  Obrigada por se preocupar, pai. E, Becky, a gente se v l. Tchau.
Dei um abrao de despedida nos dois e segui Ethan at o jipe. 
- Ento voc no est bravo comigo? - perguntei alguns minutos mais tarde quando j descamos de carro a rua particular dos Chandler que levava  rua principal.
Ele sacudiu a cabea.
- Claro que no! Por que eu deveria estar bravo com voc?
- Por estragar a sua noite. Sempre achei que voc no gostasse de bailes escolares. Voc quase nunca ia a nenhum...
- Tem razo. Nunca liguei muito pra isso. Gente demais no mesmo lugar. Sou mais do tipo um pra um. Mas neste caso  diferente, Gigi. Estou s sendo um bom irmo, 
e um bom amigo pra voc. - Ele fez uma longa pausa. - Vou ser franco, Gigi. No fiquei exatamente feliz com este arranjo, mas concordei com ele, e ningum me obrigou. 
Ento vamos deixar quieto, certo? - concluiu, com os olhos fixos no caminho.
- Claro, se  assim que voc quer...
Isso  to atpico de Ethan!, pensei enquanto continuvamos a rodar num silncio ptreo. Ele  sempre to bonacho, to relax. Alguma coisa o deve estar corroendo 
por dentro. Mas naquele momento eu me sentia muito deslumbrada e excitada pelo fato de ser a garota de Jack para conseguir parar e analisar os sentimentos de Ethan. 
Ele era um cara auto-suficiente e sem dvida terminaria por resolver o problema que o estava angustiando, fosse qual fosse.
Ethan parou o jipe no estacionamento da escola, desligou o motor e se inclinou contra o volante.
- Gigi, antes de voc entrar nessa festa preciso contar uma coisa - disse ele, respirando fundo logo em seguida. - Eu acho que Jack  o cara errado pra voc.
-  Ethan! - exclamei surpresa. - Eu sei muito bem o que quero e...
- Me deixe terminar - ele interrompeu. - Eu sei o que voc sente por Jack. Voc nunca tentou disfarar esses sentimentos pra mim. Mas ns sempre fomos sinceros um 
com o outro, e  justamente por Isso que quero contar a voc certas coisas sobre o Jack que talvez voc ainda no saiba.
- Ethan, agradeo a sua preocupao - repliquei, comeando a ficar irritada - mas sou perfeitamente capaz de tomar conta de mim mesma.
Ethan olhou atravs do pra-brisa do jipe na direo dos milharais que ficavam atrs da linha frrea.
- Bem que eu gostaria de acreditar nisso. Mas acho que voc no  preo pra ele. Gigi, Jack  muito mais experiente...
Aquilo estava comeando a ficar abertamente insultante. S porque eu tinha a mesma idade de Ethan no queria dizer que era to ingnua quanto ele em matria de amor.
- No preciso que voc cuide de mim, Ethan. J estou bem crescidinha - rebati, impaciente para sair do jipe e cair nos braos de Jack na pista de dana o mais rpido 
possvel.
Ethan por fim entendeu a insinuao nada sutil e saiu do jipe sem dizer mais nenhuma palavra.
Andamos em silncio rumo ao ginsio. Subitamente nos vimos envolvidos por uma enxurrada de gente que se dirigia  festa e ia se aglomerando em frente  porta de 
entrada.
-  Ethan! O que voc est fazendo aqui, cara? - algum gritou, e ele logo foi engolido por um mar de jaquetas, blazers e vestidos de cores brilhantes.
Enquanto eu esquadrinhava a rea  procura de algum sinal de Jack, senti algum puxar meu brao.
-  Gerolyn Pelka,  voc mesmo? - perguntou Raymonda Dabaday.
Raymonda era uma garota nascida no Haiti que estava na minha classe de francs e tinha me ensinado um monte de palavres franceses pouco antes de eu partir para 
Paris.
- Agora sou Gigi - respondi distrada, continuando a olhar ao redor no meio da massa de gente.
Jack falou que talvez se atrasasse, eu disse a mim mesma. Provavelmente ainda no chegou.
- Como quiser. Menina, voc realmente mudou! - disse Raymonda.
- ? Puxa... 
Arqueei o pescoo tentando enxergar Ethan. Supunha-se que ele viera ao baile para me acompanhar, mas tinha me abandonado completamente. Que belo amigo!
-  Com quem voc veio? - perguntou Raymonda, me puxando atravs das portas do ginsio.
-  No sei... Quero dizer, acho que estou com  Ethan Chandler, no, na verdade com Jack Chandler. No tenho muita certeza... 
Ela deu uma risadinha.
- Tudo bem. Eu tambm vim sozinha. 
Raymonda e eu entramos no ginsio, que agora parecia mais uma danceteria do que a cmara de tortura com cheiro de suor que usualmente era. As cestas de basquete 
tinham sido dobradas para cima, para perto do teto, as arquibancadas amontoadas contra a paredes, as luzes bastante amenizadas, e uma grande faixa do Winnetka Warriors, 
o time de rgbi, fora pendurada acima da linha central da quadra. Bales, serpentinas e cartazes feitos a mo estavam pregados nas paredes. Havia ponche e sanduches 
 vontade numa mesa em uma das extremidades do ginsio, e os desacompanhados de ambos os sexos se sentavam em cadeiras distribudas na outra extremidade.
A banda estava tocando uma msica bastante conhecida, de batida rpida e danante.
Raymonda comeou a estalar os dedos no ritmo.
- Uau, olha s o pique do garoto! - exclamou ela, apontando para o bolo de bailarinos no centro do salo.
Segui o dedo dela com o olhar e senti minha boca ficar mais seca que o deserto do Sahara ao ver Jack bem no meio da quadra, agora convertida em pista de dana.
- Ele  demais - disse Raymonda. - Simplesmente o melhor em tudo o que faz.
- , acho que sim - respondi em voz baixa.
Jack com certeza no estava danando como algum que acabara de deslocar o tornozelo. Provavelmente fora ao mdico mais caro de Winnetka, que devia ter sido capaz 
de produzir algum milagre no machucado dele.
Raymonda se afastou para conversar com um grupo de garotas perto da mesa dos sanduches, e eu fiquei ensaiando o que diria a Jack quando ele viesse falar comigo.
No ano anterior, Gerolyn Pelka teria se sentido inibida e sem graa ao ficar sozinha de p no meio de um baile da escola. Mas depois de um ano em Paris, eu, Gigi, 
tinha autoconfiana suficiente para no me preocupar com o que as outras pessoas poderiam pensar. Alm do mais, eu estava vestida para matar, e sabia que estava 
muito atraente. Jack no conseguiria resistir quando me visse - o que, ao que tudo indicava, poderia levar algum tempo.
Ele estava totalmente absorto em sua dana. Eu no me incomodava de esperar vendo-o se mover com tanta desenvoltura. Era como se ele houvesse se tornado parte da 
msica, uma personificao das batidas do ritmo. No restava dvida: Jack Chandler era um grande danarino. Pensei sobre a noite do sbado anterior, quando eu danara 
com ele  luz do luar na varanda da piscina...
Um grupo de gente abriu caminho para Jack, dando-lhe mais espao para desenvolver sua coreografia. E foi ento que eu pude ver quem era sua parceira.
Lydia Joyner.
Lydia olhava fixo para Jack. seus dedos estalando no ritmo da msica, seus brilhantes cabelos dourados saltando a cada balanada da sua cabea. Ela estava usando 
um vestido decotado que lhe mostrava generosamente a parte superior dos seios. Havia um monte de garotos com os queixos cados e quase babando nas laterais da pista.
Lydia podia at ter se apossado de Jack para danar aquela msica, pensei enquanto via os dois deslizarem pela quadra, mas ele era meu.
No era?
Quando a cano terminou, abri caminho at a mesa dos sanduches e agarrei uma lata de soda num isopor cheio de gelo.
Minha mente viajou de volta ao que Ethan tentara me dizer no estacionamento. Ento havia coisas a respeito de Jack que eu no sabia? Bem, claro que havia. Jack e 
eu mal tnhamos trocado duas palavras enquanto crescamos. Certo, eu sempre o admirara a distncia, mas sem dvida havia muitas coisas nele que eu no conhecia. 
Coisas que eu ia comear a conhecer agora que passaramos mais tempo juntos. 
Muito tempo...
A msica recomeou, e Jack puxou Lydia num extravagante rodopio, fazendo seu vestido curto esvoaar como as asas de uma borboleta. Era evidente que ele estava se 
divertindo  bea com ela. Odiei ter de admitir, mas os dois faziam um belo casal. 
Espantei rapidamente aquele pensamento desagradvel da minha cabea. Fora a mim que Jack convidara para o baile. E ns dois faramos um casal maravilhoso juntos 
- to logo estivssemos de fato juntos.
Deixei minha soda em cima da mesa e me dirigi  pista de dana. Eu no ia ficar esperando que Jack reparasse em mim. Isso seria o que Gerolyn teria feito naquela 
situao. Mas Gigi no: Gigi agiria. A prxima dana seria minha.
Justamente quando eu estava caminhando na direo de Jack a msica acabou. Mas no fui rpida o bastante. Jack j tinha trocado de parceira com um dos seus colegas 
do time de rgbi. Agora ele fora fisgado por Karen Haupt, a lder da torcida organizada, que quela altura j tinha danado com toda a zaga do time. 
- Quer danar comigo? - algum perguntou s minhas costas. 
Era Andrew Barnes. 
- Claro - respondi. - Adoraria.
Talvez quando Jack me visse danando com Andrew se lembrasse do que dissera no telefone quanto a no querer que nenhum cara me seqestrasse. 
No que Andrew fosse preo para Jack. Andrew, como Ethan, tinha a reputao de ser uma espcie de cientista c-d-efe bitolado. Mas, como Ethan, ele tinha mudado 
bastante durante o ano em que eu estivera fora. Tambm fiquei feliz de ver que ele tinha se livrado da pochete que usara religiosamente durante todo o primeiro colegial. 
Na verdade, Andrew estava um gato com seu blazer azul e cala cinza.
Ele me guiou at uma rea livre na pista de dana e comeamos a danar uma msica lenta e romntica.
-  Voc est muito bonita - disse Andrew, me segurando  distncia de um brao esticado. - Mal reconheci voc aquele dia no Depot, com o Ethan. No que voc j no 
fosse bonita antes, mas com certeza essa estadia em Paris causou uma bela transformao na sua vida.
-  , foi demais - respondi, esquadrinhando a multido com um olhar preocupado.
Eu no queria que Becky tirasse concluses equivocadas se chegasse e nos visse danando uma cano lenta, mesmo apesar de estarmos a quase um metro de distncia 
um do outro.
-  E ento.. h... Andrew, o que voc fez de bom nesse ano em que eu estive fora?
-  Nada demais. Ethan e eu pegamos o primeiro lugar nas semifinais do torneio estadual de cincias. Mas voc provavelmente j sabia disso. - Ele pareceu hesitar 
por um segundo - Voc veio com o Ethan, n?
-  Vim, mas no estou conseguindo encontrar ele.
Era mais fcil dizer aquilo do que tentar explicar a verdadeira situao.
-  E voc, com quem veio?
-  Ningum - admitiu ele sem graa, dando uma olhada ao redor da pista de dana e encolhendo os ombros. - H... E a Becky, no vem?
- Ela vai chegar logo - respondi.
- Com quem ela vem? - inquiriu Andrew, com as bochechas em chamas.
Olhei para os olhos dele, e uma sbita certeza emergiu na minha mente: Andrew gostava de Becky tanto quanto ela gostava dele.
- Becky est vindo com umas amigas. Ela no tem parceiro.
-  Ah, sem essa Gerolyn, quero dizer, Gigi. Tenho certeza de que pelo menos uma dzia de caras convidaram ela pro baile.
Eu sacudi a cabea negando.
- Ningum convidou - garanti.
Ele suspirou, com uma mistura de alvio e desejo.
-  Eu quis convidar a Becky, mas imaginei que ela j tinha companhia pro baile.
Justamente naquele momento Becky atravessou a porta do ginsio. Acenei para ela e me desvencilhei dos braos de Andrew.
- Olha a Becky ali! Por que voc no a convida pra danar?
- Puxa, obrigado Gigi. Vou sim. Ele soltou a minha mo e se afastou apressado, abrindo uma trilha com facilidade pelo meio da multido de danantes. Eu sorri ao 
imaginar o quanto Becky ia ficar feliz. 
Mas agora l estava eu de p sozinha no meio da pista de dana. No era exatamente daquele jeito que eu imaginara que a noite seria. Aquela altura eu teria dado 
as boas-vindas a qualquer convite para danar, at mesmo de Ethan - apesar da nossa discusso no estacionamento. S que ele estava danando com Raymonda, rindo alegremente 
de alguma coisa que ela tinha sussurrado em seu ouvido.
Caminhei decidida rumo  enorme tigela de ponche, peguei um copo vazio e refleti sobre as minhas opes. Eu podia me sentar junto com os desacompanhados nas cadeiras 
no fundo do ginsio. Podia iniciar um papo com algum que no estivesse danando. Podia fingir que tinha de retocar a maquiagem e passar meia hora enfiada no banheiro. 
Ou podia simplesmente atravessar a porta e voltar de carona pra casa.
A msica acabou de novo, mas no me virei para olhar para a rea em que eu sabia que Jack estava. No queria parecer um cachorrinho carente e expectante ali no canto 
da pista de dana.
Enchi um copo de ponche e em seguida, distraidamente, enchi outro.
- Voc no parece estar se divertindo muito - disse Ethan chegando por trs de mim e me assustando.
Ele tomou um dos copos de ponche das minhas mos.
- Estou me divertindo bastante - menti, achando que as palavras de Ethan soavam excessivamente a "eu avisei".
- Bem, e voc gostaria de danar?
- Essa dana  minha, Ethan - disse Jack, aparecendo subitamente e passando seu brao por cima do meu ombro. - Claro, se voc concordar, Gigi...
Se concordava!








































    Capitulo 5 - Um pequeno incidente
    
    
    
    
    Uma nica e simples palavra de Jack e tudo voltara  perfeio.
    Ele pegou minha mo, e o resto do mundo deixou de existir. A fria e o desejo de ir para casa desapareceram como que por encanto.
    - Foi s neste minuto que vi voc. Fazia muito tempo que estava aqui? - perguntou Jack, me guiando para o centro da pista de dana.
    - No muito - respondi, embora a ltima meia hora tivesse parecido uma eternidade.
    Mas valeu a pena esperar, pensei enquanto ele me puxava para mais perto de si.
    -        Voc  a garota mais bonita da festa - sussurrou Jack com
seus lbios quase colados no meu ouvido. - E eu sou o cara mais
sortudo.
Me senti no paraso.
-        Como vai o seu tornozelo? - perguntei.
Jack sacudiu a cabea.
    -        No consigo ouvir voc! - gritou ele, para se fazer ouvir
em meio  msica a todo volume.
    A banda tinha comeado a tocar uma msica rpida com uma batida envolvente, e Jack se soltou de mim para danar livremente. Ficamos totalmente possudos pelo 
ritmo. Ele me rodopiou para l e para c at eu ficar tonta. Ento me puxou para bem perto de seu corpo, e pude sentir seu corao batendo contra o meu. Quando a 
msica terminou, eu mal podia esperar pela prxima.
Por favor, uma lenta, rezei mentalmente.
    Mas antes de eu poder sequer ouvir a primeira nota da cano Huinte Jack foi atacado por duas garotas ao mesmo tempo, Inibas implorando por uma dana. Ele pegou 
na mo da primeira, prometeu  outra danar com ela depois, e me deu uma piscadela dignificando "a gente continua depois".
Me senti uma completa idiota.
  Jack danou as duas prximas msicas sem mim, e as seguintes mbm: primeiro com Lydia Joyner - mais uma vez - e depois m Karen Haupt.
E tudo isso com um tornozelo deslocado, acredite quem quiser.
    Peguei uma cadeira perto de Raymonda na ala dos desacompanhados.
-        Estou exausta - disse ela.
    Raymonda me pareceu perfeitamente feliz bebericando seu ponche e assistindo os outros danarem.
    Eu bem que gostaria de me sentir exausta. Mas simplesmente no tinha como estar cansada: a nica coisa que eu fizera na ltima hora fora assistir Jack danar 
com todas as garotas que o solicitavam. Me perguntei se ele sequer notaria se eu fosse embora. Alis, decidi, eu iria descobrir isso imediatamente.
    Disse au revoir a Raymonda e me dirigi apressada para a sada. Deve ter sido a atitude mais inteligente que tomei em toda a noite, porque Jack se livrou como 
que por encanto de todas as suas "obrigaes" e me alcanou antes de que eu chegasse na porta.
    - Gigi, eu daria qualquer coisa pra que esta noite pudesse ser s nossa - sussurrou ele em meu ouvido.
    - Ah,  mesmo? - perguntei com frieza, continuando a caminhar para a porta.
    - Juro. Me deixe explicar, Gigi. O time de rgbi est patrocinando este baile, e como capito do time eu tenho a responsabilidade de fazer a festa ser um sucesso. 
Se eu danasse todas as msicas com voc, como gostaria, estaria ofendendo um monte de gente. - Jack fez uma pausa breve, e em seguida colocou sua mo sob o meu 
queixo. - Sinto muito se no est sendo o melhor dos programas pra voc. Mas me deixe consertar a situao. Venha, vamos l fora conversar um pouco. S ns dois. 
Sabe, eu preferiria mil vezes que estivssemos em outro lugar agora. Passei o dia inteiro pensando em como seria fantstico poder ficar um bom tempo s com voc 
em algum lugar calmo e solitrio, s ns dois.
    - Pensei que voc tivesse passado o dia inteiro jogando rgbi - corrigi.
    - Bom, quando eu no estava totalmente concentrado no jogo estava pensando em voc... - remendou ele.
    Mas as minhas mgoas j tinham comeado a se derreter. Jack era o garoto dos meus sonhos, e eu deveria estar feliz por ele me ter convidado para o baile. Isso 
j deveria ter sido o bastante para me deixar nas nuvens. Alm do que, era quase impossvel continuar brava por muito tempo com um cara que tinha o sorriso mais 
sexy do mundo - e com certeza Jack estava usando todos os quilowatts do seu sorriso naquele momento.
    - Voc est dizendo a verdade, Jack? - perguntei, com minha resistncia cedendo mais e mais a cada segundo.
    - Palavra de escoteiro! Venha, vamos sumir daqui por um tempinho - sugeriu ele, beijando delicadamente meu ouvido. - Ningum vai notar. E tambm, se notarem, 
que importa? Essa multido no faz voc se sentir com claustrofobia?
- Totalmente - admiti. - Onde voc quer ir?
- Vamos dar uma caminhada l fora.
    Foi ento que notei que Jack estava mancando levemente, e que por baixo da barra de uma das pernas de sua cala havia algo bem protuberante: a faixa em volta 
de seu tornozelo. Ento  verdade, pensei aliviada, a histria do tornozelo no era inveno.
    -        Bem, talvez uma caminhada no seja muito boa idia -
ponderou Jack, sacudindo a perna para que a bainha da cala
cobrisse de novo a faixa. - Talvez seja melhor simplesmente
encontrarmos um lugar em que possamos ficar a ss.
Isso! Sem dvida uma tima idia.
Eu e Jack. Juntos.
Sozinhos.
    -        Gigi, por que voc no vai indo na frente, na direo da
linha frrea? Vou pegar umas sodas pra gente. Estou me sentindo
meio desidratado depois de tanta dana.
    Ele me deu um suave beijo na boca. Seus lbios demoraram um pouco nos meus, e quaisquer resduos de raiva que eu ainda pudesse guardar l no fundo de mim se 
esfumaram instantaneamente.
- Vou indo logo atrs de voc - ele prometeu.
    Eu estava quase saindo pela porta do ginsio quando vi Becky e Andrew na pista de dana. Eles danavam to coladinhos um no outro que at pareciam um s, uma 
figura surrealista de quuatro pernas e duas cabeas.
   V com tudo, Becky!, torci em silncio. A sua hora tambm chegou!
    Esquadrinhei a pista  procura de Ethan, mas no o vi em parte alguma. Talvez ele tivesse se enchido e ido embora. Depois da nossa quase-briga no estacionamento, 
supus que ele no pretendia mais me levar de volta para casa. No que eu precisasse: Jack me levaria.
Jack...
Onde andava ele?
    Quanto tempo demora pra pegar duas sodas?, pensei enquanto continuava a revistar com o olhar a rea de descanso em que se aglomeravam os desacompanhados.
    Dei uma volta em torno da pista de dana e finalmente localizei Jack. Uma multido havia aberto espao para que ele danasse uma msica de ritmo acelerado com 
outra garota. Ela provavelmente o atacara de emboscada no caminho quando ele ia pegar as sodas, pensei. Fiquei parada na borda da aglomerao, vendo Jack se contorcer 
e sacudir freneticamente.
    As pessoas aplaudiam e uivavam com as batidas da msica, o tempo todo acompanhando e estimulando a performance de Jack. Ele parecia em seu elemento perfeito, 
regozijado com toda aquela ateno que conseguia obter dos outros. No havia dvida de que para Jack ter pblico era um estmulo importante.
    Mas seu pblico tambm fazia com que fosse impossvel ficarmos a ss.
    Senti uma sbita necessidade de ar fresco. Talvez uma caminhada l fora me ajudasse a clarear a mente. Fui at a porta e girei a maaneta. Ela se abriu silenciosamente, 
como que me convidando ao exterior, e eu sa.
    Logo me vi no meio das quadras de basquete externas, envolta por uma densa fumaa cinza. Obviamente aquele era o lugar onde os fumantes se refugiavam. O cheiro 
me lembrou os cafs de Paris.
    Caminhei para alm dos fumantes, para alm das quadras, e desci a suave colina que terminava na via frrea. Mesmo l embaixo eu ainda podia ouvir debilmente 
a msica do baile.
    Brrrr. Senti um arrepio. Fazia frio l fora, e meu vestido vaporoso no protegia muito contra o vento da noite. Eu nem pensara em trazer um casaco. Talvez Jack 
me empreste o seu, se  que ele vai aparecer, pensei, com meus braos e pernas arrepiados.
    Subitamente ouvi o som de algum caminhando na grama bem atrs de mim. Deixei escapar um suspiro que eu nem sabia que estava segurando. Me virei rapidamente, 
e o sorriso estampado em meu rosto se desvaneceu quando vi que era Ethan quem vinha caminhando na minha direo, e no Jack. E ele estava segurando duas latas de 
soda.
-        Cad o Jack? - perguntei.
Ser que ele tinha realmente me dado o cano?
    - Machucou o tornozelo de novo - disse Ethan encolhendo os ombros.
- O qu? Outra vez?
    - . Ele no devia ter danado com o tornozelo daquele jeito - acrescentou Ethan, me passando uma lata de soda gelada.
    - E ele est bem? - perguntei, j comeando a andar de volta para o ginsio.
    Eu era a garota de Jack. Mesmo no tendo passado muito tempo juntos naquela noite, achei que se ele tinha se machucado eu devia estar ao seu lado. Alm do mais, 
achei bom ter uma desculpa para me livrar de Ethan. No estava com a mnima vontade de agentar Ethan esfregando no meu nariz o fato de Jack no ter me tratado muito 
bem naquela noite - como ele j havia dado a entender no estacionamento algum tempo antes.
    -        No, no v - disse Ethan, me segurando pelos ombros
para me parar. - No foi nada grave. Alm do mais, j esto
tomando conta dele. O treinador Greer o est levando de volta
pra casa, e disse que se Jack for cuidadoso talvez ainda tenha
condies de jogar na partida da semana que vem. Ele simples
mente perdeu o equilbrio num salto enquanto estava danando aterrissou com o tornozelo mal posicionado. Foi perto da mesa dos refrigerantes.
    Tentei esconder um sorriso. No que eu me sentisse feliz por Jack ter se machucado, mas o fato de ter acontecido perto da mesa dos refrigerantes significava 
que ele estava mesmo vindo me encontrar. Tinha ido pegar as bebidas pra ns dois, e a dana fora s um desvio de percurso, como eu suspeitara.
- Coitado do Jack - eu disse.
    - Pois ... O mdico do time o avisou pra no vir ao baile [ hoje, mas Jack disse que no queria decepcionar ningum.
    No falei nada, mas gostei de ouvir aquilo, pois de certa forma confirmava o que o prprio Jack me dissera.
    -        Ele me pediu pra vir aqui fora - continuou Ethan, abrindo
sua lata de soda. - Disse que voc estaria esperando por ele.
    Jack pensara em tudo. Mesmo machucado e sofrendo tivera considerao suficiente para dar um jeito de que eu no ficasse l fora no frio esperando por ele at 
sabe Deus quando.
    Uma forte rajada de vento bateu nos meus ombros nus, e meus dedos tremiam quando fui abrir minha lata de soda.
- Gigi, voc est congelando! - disse Ethan.
    - Um pouquinho - admiti, tentando disfarar meus calafrios e tremores.
Ele tirou seu palet e me ajudou a vesti-lo.
    Me aconcheguei dentro do palet ainda quente do calor do corpo de Ethan e fomos andando juntos na direo do campo de rgbi. A msica que vazava do ginsio, 
suave e distante, vinha flutuando pelo ar at ns.
Ethan ergueu sua lata de soda e a tocou na minha.
-  cura do tornozelo de Jack - brindei.
    - Ele vai ficar bom - assegurou Ethan. - Em vez disso vamos brindar  sua volta ao lar.
    Bebemos nossas sodas em silncio, e ento Ethan estendeu sua mo para mim.
- Venha.
- Aonde? O que voc est fazendo?
    - Voc no gostaria de danar? Essa  uma bela cano. Se Jack estivesse aqui com certeza danaria com voc - sussurrou Ethan, enquanto tomava a lata vazia da 
minha mo e a colocava no cho perto da dele. - No quero que a sua noite seja um fracasso total - concluiu.
    Fiquei imvel. Ethan estava agindo de uma forma muito estranha, e insinuar que danar com ele poderia ser parecido a danar com Jack era simplesmente grotesco.
    - As suas obrigaes de acompanhante esto cumpridas, Ethan - falei por fim. - Pode me levar pra casa. V fazer o que voc tinha planejado fazer antes que Jack 
o obrigasse a bancar a bab comigo.
    - Tudo bem, tudo bem. Ento que tal danar comigo porque estou pedindo a voc, por mim, e no por Jack?
    Por alguma razo me senti tensa ante a idia de danar com Ethan. Lembrei a mim mesma que no havia nenhum motivo para ficar nervosa, pois eu j havia danado 
outras vezes com ele em festas da escola.
Mas agora havia alguma coisa diferente no ar...
    -        Era pro Jack ter vindo me encontrar aqui fora! - falei, entre
confusa e irritada. - Sou a garota dele, e ele devia estar aqui comigo!
    Ethan suspirou, pegou minhas mos e me puxou para perto de seu corpo.
    -        Tem razo, Gigi, devia. Mas sou eu quem est aqui -
disse, me agarrando com firmeza.
    Tentei visualizar Jack no fundo da minha mente. A maneira como ele tinha me segurado quando danramos na varanda da piscina, a maneira como me beijara...
    -        Eu sei que voc est pensando no Jack - afirmou Ethan
cruamente, interrompendo as minhas divagaes.
    Como ele sabe?, me perguntei. Ser que Ethan consegue ler os meus pensamentos? Ou ser que eu sou absurdamente transparente?
    -        Eu conheo voc, Gigi. Est pensando em Jack porque se
considera a garota dele. Quando voc se compromete com algum
 fiel a ponto de no enxergar certas coisas. To leal, to intensa...
    Ethan estava to perto de mim que eu podia sentir o calor de sua respirao. Seus braos me apertaram com mais fora, e sua /oz suave e tranqilizadora me envolveu 
em uma atmosfera estranha, misteriosa, quase hipntica.
-        Venha, Gigi. Somos amigos...
    Enquanto danvamos fechei os olhos e tentei imaginar que estava nos braos de Jack. Imaginei seus dedos passeando pelos meus cabelos, seu queixo apertado contra 
o meu...
    Mas no pude sentir o peculiar aroma da loo ps-barba de Jack. Sentia apenas o perfume de Ethan, o cheiro da grama mida, e um odor distante e agradvel de 
folhas secas queimando.
    No era um lugar dos mais fceis para se danar. Os saltos dos meus sapatos enganchavam a toda hora nos buracos feitos durante o dia no gramado pelos cravos 
das chuteiras dos jogadores de rgbi. Mas Ethan, surpreendentemente, era um timo danarino. A uma certa altura ele me rodopiou, e seu palet escorregou dos meus 
ombros e caiu no cho.
    Parei para peg-lo. Obviamente era um palet caro, e eu no queria que ficasse sujo.
    -        Esquea isso - sussurrou Ethan com uma voz mais grave
e profunda do que o normal.
Ele continuou danando.
    Percebi que o meu frio tinha passado, embora a temperatura continuasse a cair rapidamente.
    Por mais que me esforasse, no conseguia fingir que Ethan era Jack. Ele era totalmente diferente de seu irmo. Eu tinha plena conscincia de que no estava 
danando com Jack: estava danando com Ethan, e gostando muito.
    -        Ethan... - comecei, enquanto continuvamos a balanar
lentamente ao som abafado e distante da msica.
    Danar com Ethan me fazia sentir to bem, to inesperadamente bem...
    Ento ele inclinou a sua cabea em direo  minha, como se fosse me beijar. E eu me esqueci completamente do que ia dizer, fosse o que fosse.
    -        Ethan, no... - eu disse, voltando rapidamente  razo e
empurrando-o com delicadeza.
-        Tudo bem, tudo bem, calma - sussurrou ele. 
E me beijou na testa.
Apenas uma leve presso de seus lbios. Pura magia.
    E antes que eu tivesse tempo de pensar em mais nada estvamos nos beijando ardentemente. Na boca. Pra valer.
    No incio nossos lbios apenas roaram suavemente, e depois se buscaram com cada vez mais intensidade. Fechei meus olhos com fora e senti milhares de estrelas 
explodirem nas minhas plpebras. E escutei fogos de artifcio trovejando nos meus ouvidos.
Eu estava planando nas alturas...
    Ethan levantou sua cabea por um breve momento. Me olhou com uma expresso estranha e profunda por um segundo e veio ao meu encontro novamente para mais um beijo 
explosivo, alucinante.
Por fim ele deu um passo atrs.
    Eu estava em estado de choque. Como posso pular em uma nica noite de uma paixo desesperada por Jack para isto que acaba de acontecer?, me perguntei. Preciso 
recuperar o meu autocontrole imediatamente se no quiser enlouquecer.
-        Gigi...
    Ethan parecia estar a ponto de dizer algo importante. Algo que eu no queria escutar.
    -        Ethan, eu estou saindo com o seu irmo, lembra? Acho
que a gente... a gente se deixou levar pelo clima, pelo momento,
sei l... Vamos esquecer isto, certo?
    Tentei soar firme, mas meu corpo implorava por outro de seus beijos. Eu sabia que provavelmente o estava magoando com aquelas palavras, mas no tinha outra opo.
Houve um silncio de vrios e longos segundos.
    - Vamos embora daqui - falou ele por fim. - Vou levar voc ao Homer's.
- H?
    - O Homer's. Voc deve se lembrar do lugar. Aquela dance-teria na Green Bay Road.
    - Eu conheo muito bem o lugar, Ethan, mas no entendo por que deveramos ir pra l.
Peguei seu palet da grama mida em que havia cado.
    -        U, sei l, pra gente se divertir um pouco - retrucou ele,
sem conseguir soar muito convincente. - O time de rgbi vai se encontrar l depois do baile.  pra l que Jack com certeza levaria voc. Estou s substituindo o 
meu irmo, lembra?
    -        Ethan, j chega! Voc no  o Jack. Pare de ficar dizendo
0 que ele faria se estivesse aqui. O que voc faria?
-        Se voc fosse a minha garota? - perguntou ele, hesitante.
Ethan me fitou por um longo momento at decidir o que diria.
    -        Eu levaria voc de novo ao Depot - falou por fim. - Ia
levar no mnimo uma hora pra eles nos servirem umas batatinhas
fritas e duas sodas. Mas mesmo assim seria melhor do que ir ao
Homer's. Alm do mais, o pessoal do Depot nos deixaria ficar por
l a noite toda sem nos pressionar pra ir embora.
    Eu sorri, aliviada por ver Ethan falando de novo com sua voz de sempre, sem aquela estranha rouquido de poucos minutos antes. Aliviada tambm por ele no estar 
pretendendo me beijar outra vez, e por estar agindo como se fossemos apenas amigos enquanto caminhvamos juntos rumo ao estacionamento.
    Porque era exatamente daquele jeito que eu queria que as coisas continuassem a ser.








Capitulo 6 - Romantismo Perdido
    
    
    
    
    - Acho que se eu assistir mais um desenho animado vou ter um ataque! - exclamei, agarrando o controle remoto.
    Jack tentou peg-lo de volta, e nos engalfinhamos numa luta de brincadeira no sof da sala de tev da manso dos Chandler. Terminamos embolados no tapete de 
l de ovelha que ficava jogado sobre o encosto do sof.
    Era domingo de manh, e eu tinha ido l para ver como Jack estava passando. Me sentia culpada por ter beijado Ethan na noite anterior. E depois do baile Ethan 
e eu ainda tnhamos ficado no Depot por horas, conversando, rindo e passando um grande momento juntos. Andrew e Becky tambm haviam aparecido por volta de uma da 
manh, e ns quatro ficamos mais uma hora juntos.
    Quando Ethan me deixara em casa, eu fora direto para a janela do meu quarto para ver se a luz do quarto de Jack ainda estava acesa.
Mas ele j devia ter ido dormir.
    Apenas a luz do quarto de Ethan continuava acesa. E continuaria por vrias horas noite adentro.
    Levei muito tempo para pegar no sono. Fiquei pensando no quanto tinha sido forte a sensao de beijar Ethan. Bem,  verdade que eu tentara imaginar que estava 
beijando Jack, e no Ethan, mas por alguma razo tivera muita dificuldade em conseguir isso. Desejei poder simplesmente esquecer tudo e retomar as coisas com Jack 
do ponto em que tnhamos parado.
    E era exatamente o que eu estava tentando fazer naquele momento na sala de tev.
   Jack me abraou e ento j no me importava mais ter de assistir desenhos animados pelo resto da minha vida, desde que Jack estivesse diante dos meus olhos e 
seus lbios colados nos meus.
    Quando a boca de Jack tocou a minha boca esperei que os fogos de artifcio e as estrelas explodissem dentro da minha cabea e apagassem de vez as lembranas 
dos estonteantes beijos de Ethan.
Esperei.
E esperei.
E esperei.
    Nossos lbios estavam firmemente apertados uns contra os outros, mas fora isso eu no sentia nada.
Absolutamente nada.
    Justo naquele momento Ethan entrou na sala com um bem-recheado saco plstico de mercearia. Embaraada por ter sido pega naquela situao, comecei a me levantar, 
mas Jack me segurou e puxou de volta para baixo.
    - Voc no est  vontade? - perguntou ele com uma voz sexy.
    Fiz que sim com um gesto de cabea. Apesar de beijar Jack no ser uma experincia to eletrizante quanto eu sempre imaginara que seria, me fazia sentir bem. 
Alm disso, continuar sentada com ele no sof era uma forma de fazer Ethan compreender que eu estava muito interessada na minha relao com Jack e nada interessada 
em qualquer sujeira que ele quisesse jogar sobre seu irmo. Nem em mais nenhum daqueles seus beijos...
    Sim, Jack estava definitivamente certo. Eu tinha de me sentir  vontade. No havia qualquer razo para me levantar apenas porque Ethan entrara na sala. Afinal, 
por que Ethan no poderia nos ver daquele jeito? Eu era a namorada de Jack. J estvamos saindo juntos h mais de uma semana.
    Relaxei apoiando minha cabea no peito de Jack, e me senti muito bem. Fiquei agradecida a Ethan por ele no dar a Jack o menor indcio do que acontecera entre 
ns dois na noite anterior.
    -        Voc pegou algum filme decente pra mim? - perguntou
Jack, enquanto cafungava carinhosamente perto do meu ouvido.
    Tive a desagradvel sensao de que ele estava se aproveitando da boa vontade de seu irmo e de alguma maneira muito sutil me usando para tentar provoc-lo.
    Com um floreio, Ethan retirou um mao de fitas de vdeo da sacola plstica.
    - Soldado universal, Robocop, O exterminador do futuro, Van Damme...
    - Van Damme, os Msculos de Bruxelas! Uau! - gritou Jack, entusiasmado. - Isso  o paraso!
    Ele pareceu at se esquecer da minha presena, mesmo apesar de eu estar praticamente sentada no colo dele.
    - Msculos de Bruxelas? - perguntei, olhando de Jack para Ethan e de volta para Jack. - De que raios voc est falando?
    - Jean-Claude Van Damme, o maior kick-boxer do mundo! - explicou Jack. - Eu assisti todos os filmes dele. Sabe, ao contrrio da maioria dos atores, que usam 
dubles, o Jean-Claude faz as suas prprias cenas de luta. Ele  fantstico!
    - Peguei o Bloodsport - especificou Ethan, erguendo a fita como se fosse um prmio valiosssimo.
    - Bloodsport? - repeti, com receio do que poderia ouvir em resposta.
    - Isso! Isso! Isso! - exclamou Jack excitado, praticamente beijando a caixinha do vdeo. - Ah, cara, isto aqui quase faz valer a pena ficar preso em casa! Bloodsport 
 o melhor filme que o Van Damme fez em toda a sua vida!
    - Tambm peguei umas guloseimas pra voc - disse Ethan, tirando do saco dois pacotes de biscoitos e uma garrafa de dois litros de soda. Em seguida foi buscar 
um copo e colocou um pouco de soda para seu irmo.
    Enquanto Ethan enfiava Bloodsport no videocassete, nossos olhos se encontraram, e eu senti as mas do meu rosto ficarem em chamas. Virei a cara rapidamente 
para o outro lado, temerosa de que os dois notassem.
Ethan apertou o boto play do aparelho.
-        Bom, j vou indo - disse ele. - A gente se v mais tarde
   - Ei, alto a, espere s um minuto! - pediu Jack. - Sabe de ma coisa, Gigi, eu acho que voc no vai gostar muito de ficar engaiolada aqui comigo e o Jean-Claude 
pelo resto do dia.
- No me importo - rebati.
    Eu podia facilmente me imaginar passando o resto do dia no sof enlaada pelos braos de Jack, independentemente do que estivesse na tela.
    - Um cara do time de rgbi me deu duas entradas para o rinque de patinao no gelo - insistiu Jack.
    - Mas voc no pode patinar - observei. - Mal consegue andar...
- Eu sei, mas o Ethan...
    - Eu ficaria contente de ir - disse Ethan, me fitando diretamente nos olhos.
    - Ento tudo resolvido - disse Jack, parecendo satisfeito com a facilidade com que resolvera a questo. - Vejo vocs daqui a umas duas horas.
    Ethan j tinha sado pela porta, provavelmente a caminho de ir pegar seus patins, quando protestei.
    - Pera, me desculpem vocs dois, mas ser que ningum vai me perguntar o que eu quero fazer? - indaguei, talvez com excessiva aspereza.
    - Ah... desculpe, Gigi - disse Jack, parecendo genuinamente arrependido. - Eu simplesmente supus que voc ia preferir muito mais patinar do que ver este filme. 
Mas se voc prefere ficar aqui comigo, tanto melhor.
    Ele se aproximou mais de mim, nossos lbios praticamente se tocando...
    - Aaaaiii! - Jack deu um pinote no sof como se tivesse sido mordido por uma cobra.
    - Ah, no! - gritei tambm, me levantando de um pulo quando senti um lquido gelado ensopando os meus jeans.
    Estvamos ambos banhados em soda, e a garrafa quase sem lquido jazia deitada de lado bem no meio do sof.
    Ethan, que devia ter parado no corredor a poucos passos da sala de tev quando eu reclamara da falta de considerao dos dois para com a minha vontade, escancarou 
a porta.
- O que aconteceu? Voc torceu o tornozelo de novo?
    - No - disse Jack bravo, pegando a garrafa de soda e colocando-a no cho.
    Ethan olhou para os meus jeans molhados e depois para seu irmo, que soltava fumaa pelas ventas.
    - Puxa, sinto muito, Jack. Devo ter me esquecido de recolocar a tampinha na garrafa - disse ele, parecendo reprimir um sorriso.
    - Se eu no conhecesse voc melhor, diria que fez isso de propsito - grunhiu Jack, afastando sua perna da poa que se formara no meio do sof.
- Ora bolas, e por que eu faria isso de propsito?
- Sou capaz de imaginar uma ou duas razes.
- Isso  puro delrio.
-  mesmo?
-  - disse Ethan secamente, fechando a questo.
    Os dois irmos se encararam com dureza por alguns segundos. Por fim Jack virou o rosto e olhou para mim. Ambos sabamos que o nosso momento passara, que o romantismo 
daquele instante se desvanecera totalmente.  impossvel retomar um clima romntico quando se est coberto de soda fria e melequenta.
    -        Vo patinar, t bom? Depois a empregada limpa isto -
falou Jack, mal-humorado
    Ethan me conduziu at a porta e disse que me encontraria no quintal, em frente  minha casa.
    - Vai ser s um minuto. Por que voc no aproveita pra trocar de cala enquanto me espera? Est encharcada. E no se esquea dos seus patins.
    - Divirta-se, Gigi! A gente se v mais tarde! - gritou Jack por trs de mim quando eu j descia a escada.
    O que eu fao agora?, me perguntei. Passar um dia inteiro sozinha com Ethan no era uma idia muito inteligente, especialmente tendo em vista que eu no conseguia 
parar de pensar na noite anterior. No conseguia parar de sentir o toque dos lbios dele nos meus, o calor de sua respirao, seus braos me agarrando com firmeza...
E no conseguia parar de desejar que aquilo acontecesse de novo.





Capitulo 7 - Sentimentos Secretos




    - Ei, tive uma grande idia - disse Ethan quando dvamos a volta na pista de patinao de gelo pela centsima vez.
- Qual?
    - Que tal dois belos copos de sidra naquelas mesinhas perto do aquecedor? - ele perguntou, j me guiando para a rea de descanso.
    Tnhamos passado a ltima hora inteira, ou perto disso, tentando patinar no meio de selvagens pirralhos que deslizavam velozmente pela pista com tacos de hquei 
a tiracolo, meninas impecavelmente vestidas com trajes de patinao rodopiando e se exibindo no centro do rinque, e mames e papais tentando manter de p seus titubeantes 
bebs.
    Pedimos as nossas sidras e abrimos caminho at as mesinhas que ficavam perto do aquecedor, de frente para o rinque. Encontramos uma mesa suficientemente distante 
dos pais nervosos e tagarelas que vigiavam seus fedelhos a distncia e nos sentamos.
    Ficamos um tempo em silncio, e enquanto isso meus olhos eram atrados pelos casais que deslizavam  nossa frente. A maioria estava de braos dados - pelo menos 
os que conseguiam manter o equilbrio -, rindo e tentando se beijar de vez em quando, embora fosse um bocado difcil fazer isso patinando no gelo.
    Visualizei Jack e eu patinando juntos, e senti um leve tremor quando imaginei seus braos em volta do meu corpo.
- Voc est com frio? - perguntou Ethan.
- No - respondi.
    Por alguma razo a idia de mencionar o nome de Jack a Ethan me constrangia, sobretudo considerando que pouco tempo antes eles quase haviam brigado.
    Ethan e eu permanecemos num confortvel silncio por mais alguns minutos. Meus pensamentos vagavam entre Ethan e Jack, comparando os dois irmos - e comparando 
meus sentimentos por cada um deles. Era como se tivesse ocorrido um cruzamento de canais, uma espcie de curto-circuito dentro de minha cabea. Eu amava Jack, mas 
o beijo de Ethan fora muito mais poderoso, mesmo ele sendo apenas um amigo.
    Me lembrei da ltima vez que Ethan e eu havamos patinado juntos. Tinha sido no dcimo segundo aniversrio de Ethan, e o sr. Chandler trouxera uma grande turma 
de meninos e meninas para o rinque de patinao. Ethan e eu tnhamos fingido que ramos um casal de patinadores olmpicos, e nos divertramos bastante tentando imitar 
as acrobacias e passes de bale. Jack preferira ficar fora do rinque, brincando de pega-pega com seus amigos.
    De repente algo que Jack me dissera a respeito de Ethan pipocou na minha mente. Ser que Ethan j sara alguma vez com uma garota? Ou ser que ele simplesmente 
no tinha interesse no assunto, como Jack insinuara? Senti uma sbita e urgente necessidade de descobrir.
    -        Ethan, voc j esteve apaixonado alguma vez na sua vida?
- perguntei abruptamente, rompendo o longo silncio.
Ele refletiu um momento antes de responder.
- Eu... h... Uma vez pensei que estava...
- Mesmo? - insisti, sentindo uma tnue pontada de cimes. Ethan Chandler, o solitrio, o corredor de longas distncias,
j estivera apaixonado! Eu precisava saber mais.
    -        E quem era ela? Como  que eu nunca fiquei sabendo
disso? Por que voc nunca me falou nada? - metralhei.
Ele sacudiu a cabea.
- Isso no importa mais agora...
- Por que no?
Ele encolheu os ombros.
    -        Nada chegou a acontecer de verdade. Ela nunca sentiu o
mesmo por mim. At gostava de mim, mas nunca considerou a
coisa com muita seriedade. s vezes parecia que ela olhava direto
atravs de mim, como se eu fosse transparente, como se no
estivesse l.
    -        Puxa, isso deve ter dodo. Era exatamente assim que eu
me sentia com relao a Jack antes de ir pra Paris. Ei, talvez voc
devesse viajar por um tempo, como eu fiz!
-        No acho que isso faria muita diferena.
Ele tomou outro gole de sidra.
    - Ainda no consigo acreditar que voc esteve apaixonado e eu nunca soube. Sei de algumas garotas que j tiveram queda por voc, mas voc nunca pareceu interessado 
nelas.
    -  que voc sempre achou que eu era um c-d-efe interessado apenas em qumica e em correr longas distncias. Um bitolado. Um babaca - disse ele, soando estranhamente 
amargo. - S estou interessado em estudar e aprender, no em relacionamentos. No  assim que voc me v, Gigi?
    - No Ethan, nunca pensei isso de voc - protestei. - Sei muito bem que voc no  nem um babaca nem um bitolado. Apenas me surpreendeu essa histria de voc 
ter estado apaixonado e nunca ter me falado a respeito, s isso. Nunca achei que voc tivesse se interessado por ningum.
    Ele bebeu o resto de sua sidra, amassou o copo de plstico, se levantou e comeou a andar de volta para a pista.
Assunto encerrado.
Agora no era s no rinque que havia gelo. Entre ns tambm.
    Terminei rapidamente de beber a minha sidra e o segui. A princpio pensei que ele ficaria bravo comigo por um bom tempo por ser to abelhuda, mas depois de uns 
poucos minutos de tenso Ethan comeou a se soltar, e voltamos a nos divertir de novo. Terminamos brincando de pega-pega com um grupo de crianas vestidas com bluses 
e capacetes de jogadores de hquei.
    Quando uma voz no alto-falante anunciou que o rinque iria fechar, percebi que no tinha nenhuma vontade de que o nosso dia juntos terminasse.
    -        Voc gostaria de ir ao Espresso Pacifico? - sugeriu Ethan
quando dvamos a nossa ltima volta pela pista.
    O Espresso Pacifico era um caf aconchegante que fazia o melhor chocolate quente de Winnetka.
    -        Grande idia! - concordei. - Vamos apostar uma corrida
at a sada. Quem perder paga! - gritei, saindo em disparada.
    - Hum, que delcia! - exclamei ao sentir o vapor do chocolate quente que a garonete colocou bem na minha frente. - Eu tinha me esquecido de como este lugar 
 gostoso.
    - E, no ano passado se tornou um vcio pra mim - disse Ethan, dando uma mordida em seu sanduche de frango. - Mas nunca tive to boa companhia - acrescentou, 
me olhando e sorrindo.
    Me inclinei para trs no assento. A pele dele estava brilhando por causa do ar frio e spero do outono. Achei que estava bonito com sua malha de l cinza e seus 
jeans desbotados - mais bonito do que eu gostaria de admitir. Ethan no  o seu namorado, Gigi, disse a mim mesma. O irmo dele  que .
Respirei fundo.
    -        E ento me conte Ethan, o que aconteceu de interessante
em Winnetka nos ltimos doze meses?
    
    Ethan me atualizou a respeito de tudo o que tinha acontecido na escola enquanto eu estava fora. Tambm conversamos sobre o futuro, para onde queramos ir, o 
que queramos ser e o que pretendamos conseguir na vida.
    Eu queria ser uma jornalista, fazer reportagens por todo o mundo sobre os fatos mais excitantes da atualidade. Ethan queria ser qumico, aprender de que  feito 
o universo e encontrar a cura para as doenas que se incrustam no cdigo gentico do ser humano.
E aqueles sonhos eram s o comeo.
    Contei a ele sobre meu desejo de viajar para a sia num navio cargueiro. Ele disse que queria escalar o monte Everest. Ambos queramos ir  Ilha de Pscoa para 
ver aquelas enormes e estranhas esttuas de pedra. E ns dois estvamos determinados a ir o mais longe de Winnetka que fosse possvel.
    -        Ei, a gente fecha s cinco nos domingos! - o gerente
gritou da cozinha.
J eram cinco horas da tarde!
    -        Ah, no! No pode ser to tarde! Eu prometi  Becky que
alugaria uma fita de vdeo pra vermos juntas hoje  noite - eu
disse, limpando freneticamente a baguna que tnhamos feito na mesa. - Ela quer me contar tudo sobre a noite de ontem com o Andrew.
    - Eles se tornaram um casal durante a noite, ? - perguntou Ethan.
    - J fazia muito tempo que ela gostava dele. E eu acho que pra ele era igual. S que nenhum dos dois tinha coragem de dizer nada ao outro.
    -  bom quando as coisas finalmente do certo... - comentou Ethan.
-  mesmo, n?
    Ele concordou com um gesto de cabea e uma expresso levemente melanclica.
    -        Ento... suponho que voc queira dar um pulo l em casa
antes de se encontrar com a Becky, pra ver como vai o Jack? -
perguntou.
Jack...
    As horas tinham voado e eu no tinha mais pensado em Jack desde que deixramos o rinque de patinao, to absorvida eu estivera pelo meu papo com Ethan. Geralmente 
quando eu estava longe de Jack, mesmo que fosse por poucas horas, comeava a sentir saudades. Mas no tinha sentido a mnima falta dele em toda a tarde. E aquilo 
me assustava.
-        H... claro, vou sim - respondi hesitante.
    O encantamento entre Ethan e eu parecia ter se rompido abruptamente apenas pela meno do nome de Jack.
    Samos do caf e andamos at o carro. Comeara a chuviscar. Olhei para o cu e abri a boca, na esperana de saborear uma gotinha de chuva. Ethan fez o mesmo.
    - Peguei uma! - gritei ao sentir uma mida e fria alfinetada na lngua.
- Eu tambm! - exclamou Ethan.
- E qual foi o seu desejo? - perguntei.
    Era uma velha lenda de vivas que se algum fizesse um desejo logo depois de pegar com a boca a primeira gota de chuva, esse desejo se tornaria realidade.
    -        No posso contar - ele respondeu, continuando a andar
em direo ao jipe. - Se voc contar o seu desejo, ele no se realiza.
    Ethan nem sequer perguntou o que eu tinha desejado. No que eu contaria a ele, de todo jeito.
    Continuei repetindo meu desejo uma e outra vez. Quero que Jack Chandler se apaixone por mim, quero que jack Chandler se apaixone por mim, quero que Jack Chandler 
se apaixone por mim... Mas, por alguma estranha razo, eu sentia que l no fundo no desejava aquilo com suficiente convico. Ou desejava?
    Abri a porta do jipe e me sentei ao lado de Ethan. Eu me sentia perplexa com tudo o que estava acontecendo no meu relacionamento com Jack. Tinha esperado anos 
por aquilo, tinha alimentado uma avassaladora paixo a distncia por quase toda a minha vida, e agora que as coisas finalmente estavam se concretizando entre ns 
eu no podia deixar que nada se metesse no nosso caminho - muito menos uma leve atrao pelo irmo dele.
    Ethan era apenas um amigo, lembrei a mim mesma pelo que me pareceu ser a milionsima vez, e por isso era to fcil me sentir  vontade com ele. Entre amigos 
as coisas sempre so mais simples do que entre namorados.
Apenas um amigo...
    Ento por que estar com Ethan me deixava emocionalmente to confusa?
    Ethan entrou na rua particular dos Chandler, estacionou o jipe ao lado da fonte que ficava diante de sua casa, e se voltou para mim. Ento tocou carinhosamente 
meu queixo com sua mo direita e me olhou com uma expresso triste.
    - Gigi, preciso contar uma coisa a voc - comeou ele. -  sobre o baile de ontem. Mesmo no sendo mentira que Jack deslocou o tornozelo, essa no foi a verdadeira 
razo pela qual ele no pde pegar voc. No era voc a garot...
Pam! Pam! Pam!
    Quase soltei um berro quando vi um punho voar na minha frente pelo lado de fora do carro e esmurrar o pra-brisa.
    Era Jack, com um abrigo de moletom limpinho e um sorriso devastador. Seus cabelos estavam despenteados e embaraados, e ele me pareceu mais lindo do que nunca.
E ele  meu, pensei. Todo meu...
O que quer que Ethan estivera a ponto de me dizer com aquele seu costumeiro jeito cheio de rodeios, minha curiosidade se esfumou completamente assim que olhei para 
Jack. Como eu podia chegar a confundir os sentimentos de amizade que tinha por Ethan com a violenta paixo que Jack me inspirava?
    Meu corao voltou a bater em velocidade normal enquanto eu abaixava a janela.
    -        O que voc est fazendo aqui fora? - perguntei. - No
era pra voc ficar deitadinho e quieto l dentro?
    Jack abriu a porta do jipe para mim e estendeu sua mo. Eu a segurei e sa do carro. Ele no me soltou mesmo quando eu j estava no cho ao lado dele.
    - Acabei de me despedir do fisioterapeuta - respondeu Jack. - Trabalhamos quase a tarde inteira. E sabe o que ele disse? Que vou estar de p e em forma dentro 
de dois ou trs dias. Vou ter de faltar  escola amanh, o que  uma baita sorte, porque tenho uma prova de trigonometria e estou totalmente despreparado pra ela. 
Precisamos comemorar! O jogo da semana que vem est salvo! Vou estar totalmente de p no sbado.
    - Voc est totalmente de p agora - salientou Ethan, ainda sentado no jipe.
- Muito observador, mano.
    Jack pegou a minha outra mo tambm, e ficamos um de frente para o outro, nos olhando.
    -        As suas bochechas esto rosadas - disse ele com uma voz
suave. - Voc est ainda mais bonita do que de costume. Se
divertiu no rinque?
Respondi que sim com um gesto de cabea.
- , de fato nos divertimos bastante - confirmou Ethan.
- timo - disse Jack, sem desgrudar seus olhos de mim. Pensei que fosse me beijar, mas ele hesitou e olhou para
Ethan, que sara do jipe e estava l de p.
    -        Ok, mano, os seus servios de acompanhante esto dispensados - disse Jack, deslizando seu brao pelo meu ombro. - Pode
ir agora.
    Fiquei pasma. Jack estava sendo to rude com seu irmo! Por qu? Essa era uma faceta dele que eu nunca vira antes, e que no me parecia muito atraente. Mas, 
por outro lado, minha vida ficaria bem mais simples uma vez que Ethan parasse de bancar o substituto Jack. Minhas emoes finalmente se livrariam daquela montanha-russa 
maluca.
    Sem dizer uma palavra, Ethan se virou de costas e saiu caminhando em direo  casa.
    -        Obrigada, Ethan! - gritei por trs dele. - Obrigada por
me levar pra patinar. Foi superlegal.
    Mas Ethan no se voltou. Fiquei olhando sua malha de l cinza desaparecer na distncia.
    -        O que estar corroendo ele por dentro? - perguntou Jack
a ningum em especial.
    Mas na verdade Jack no parecia dar a mnima para os sentimentos de seu irmo. At pensei em responder que talvez fosse a grosseria dele o que ofendera Ethan, 
mas no quis correr o risco de comear uma briga com Jack. No quando as coisas estavam indo to bem.
    -        Venha, vamos nos sentar um pouco - disse ele, me
conduzindo para a varanda da piscina. - De todo jeito, preciso
mesmo dar um tempo pra este maldito tornozelo.
    Acabamos partilhando uma espreguiadeira. Ele se sentou primeiro e em seguida me puxou. Eu me sentei entre as pernas dele, me inclinando de costas contra seu 
peito e mantendo minhas pernas esticadas, procurando no encostar em seu tornozelo machucado.
    Ficamos assim por um longo minuto, em silncio. Ele me enlaou com seus braos musculosos e beijou minha nuca. Meu corpo inteiro estremeceu de prazer.
Jack com certeza me ouvira suspirar.
-        Voc est feliz, Gigi? - perguntou ele.
    Fiz um lento gesto de cabea dizendo que sim. Nunca me sentira mais feliz nem mais confusa em toda a minha vida.







   Capitulo 8 - Um fato inesperado
    
    
    
    
    Jack no foi  escola na segunda-feira. Me pediu que perguntasse a algum colega de sua classe quais seriam as tarefas para o dia seguinte e que passasse em sua 
casa depois da escola para lhe contar.
    Por fim eu estava comeando a me sentir sua namorada de verdade. E era uma sensao estranha. Uma sensao pela qual eu tinha esperado a maior parte da minha 
vida, mas que agora, por algum motivo obscuro, me deixava confusa.
    Quando cheguei  casa dos Chandler, Jack estava deitado no sof - que fora limpo de todo e qualquer vestgio de soda - assistindo a um dos filmes que Ethan lhe 
trouxera no dia anterior. Ele vestia uma malha de moletom e jeans. Acabava de sair do chuveiro, e seu cabelo estava mido. Pelo perfume de loo ps-barba, deduzi 
que tambm tinha acabado de se barbear.
Ele se enfeitou todo s pra mim, pensei com prazer.
    Seus ps descalos, um deles ainda envolto por uma faixa, descansavam no brao do sof.
Jack cortou o som da televiso assim que me viu chegar.
    -        Oi, Gigi - disse ele com um sorriso. - Estou contente de
ver voc. Aqui foi s eu e o Jean-Claude o dia inteirinho.
    Passei a ele a lista de lies de casa e me acomodei na beirada do sof.
- Deve ter sido excitante - comentei.
    - No to excitante quanto ter voc pertinho de mim - replicou ele, me puxando contra seu corpo.
    Jack me deu um beijo longo e intenso. Ele no era dado a rodeios, e sempre que me beijara fora pra valer, com tudo. Mas mesmo assim, por alguma razo at agora 
eu no reagira da maneira que sempre pensara que reagiria aos beijos dele. Naquele momento, especificamente, achei que seus braos estavam me apertando um pouco 
forte demais, e parecia difcil respirar.
    Empurrei com delicadeza o peito dele e virei ligeiramente o rosto para o lado em busca de um pouco de ar.
- E ento, como vai o p? - perguntei.
    - Melhorando. Fiz os exerccios de fisioterapia a manh toda. Esto ajudando muito.
    - Que bom! - exclamei contente. - Porque a Becky me deu duas entradas para a pea dela com o grupo de teatro da escola. Achei que poderamos ir juntos.
    Aquele programa seria uma apario pblica: todo mundo na escola veria que ns dois ramos oficialmente um casal.
- E quando voc queria ir? - perguntou ele.
    - A estria  na quarta-feira  noite. A Becky quer muito que todos os amigos dela estejam l.
    - Quarta-feira? Sei no... Talvez eu nem sequer possa ir  escola na quarta...
    Tentei esconder minha decepo, mas Jack deve t-la visto estampada em meu rosto.
-  realmente importante pra voc ir a essa estria, no ?
- ,  sim - respondi esperanosa.
- Bom, nesse caso... - comeou Jack. Grande! Ele vai! -  pensei excitada.
- ... o Ethan pode levar voc - concluiu.

    - Ethan? Mas, Jack, eu quero ir com voc! - quase gritei, me sentindo mais uma vez em uma montanha-russa emocional.
    - Pensei que voc gostasse do Ethan, Gigi. Ele  meu irmo. E me deve umas desde que ramos pequenos e eu impedia que os marmanjos da escola lhe quebrassem os 
culos na cara. Alm do mais, ele no vai se incomodar...
    - Tudo bem, tudo bem - concordei relutante. - Se o Ethan estiver livre, aceito que ele me leve ao teatro.
Era com Jack que eu queria ir. Era Jack o meu namorado. Ento por que uma vozinha dentro de mim dizia que a verdadeira razo pela qual eu relutava ante a idia de 
ir com Ethan era que Ethan me fazia sentir coisas que eu no queria sentir com ningum alm de Jack?
    -        Ah, pode deixar, ele vai estar livre - Jack assegurou. -
Que compromisso o meu irmo poderia ter?
    Ele apertou um boto no controle remoto e o som da tev explodiu a todo volume na sala.
    -        A que horas eu digo pra ele pegar voc? - perguntou Jack
quase gritando, sem nem sequer olhar para mim.
    Na tera-feira de manh, na escola, eu estava de p perto do meu armrio no intervalo entre a segunda e a terceira aulas quando Becky veio ao meu encontro. Esperei 
que ela me fizesse um relatrio sobre os ltimos eventos em seu incipiente relacionamento com Andrew Barnes, mas Becky tinha coisas mais urgentes para me contar.
    -        Voc no vai acreditar no que eu acabei de ouvir - disse
ela, excitada.
    Antes mesmo que eu tivesse chance de tentar adivinhar, ela entregou o ouro.
-        O Ethan est saindo com a Lydia Joyner!
    O sinal tocou. Dois minutos para entrar na aula de qumica. Puxei os livros de que precisava do fundo do meu armrio e bati a porta.
    - O qu? - perguntei chocada, sem conseguir acreditar nos meus ouvidos,
    - Pois . Eles vo se encontrar hoje s sete da noite no Espresso Pacifico.
    Engoli em seco. Era exatamente l que Ethan tinha me levado no dia anterior.
    -        Como voc soube disso? - perguntei, tentando soar
despreocupada.
    -        Direto da fonte. Ouvi Lydia conversando com Karen Haupt
na sala de estudos. Eu estava sentada numa mesa perto da delas. 
No consegui escutar tudo o que disseram, mas mesmo assim
peguei um bom pedao do papo. Lydia disse que Jack no estava
retornando as ligaes dela, e depois disse algo envolvendo Jack e
o baile de sbado passado que no fez muito sentido, j que voc era o par de Jack no baile, e no ela. Ento comentou que ia se encontrar com Ethan no Espresso 
Pacifico. Acho que ela finalmente desistiu do Jack e resolveu abocanhar o herdeiro seguinte na linha sucessria dos Chandler. De qualquer jeito, na minha opinio 
o Ethan est cometendo um grande erro saindo com essa menina - concluiu Becky.
    - Por qu?  um pas livre. Alm do mais a Lydia  uma gata. Se o Ethan quer ficar pegando as sobras de Jack, problema dele - observei, com mais ironia do que 
eu mesma esperava expressar.
    - Engraado, voc est at parecendo irritada com toda essa histria. Pensei que fosse ficar contente ao saber que Lydia jogou a toalha. Pelo menos assim ela 
no vai mais ficar rebolando o traseiro diariamente na fua do Jack - rebateu Becky.
    - Sei l... No tem nada no.  que eu pensava que o Ethan tivesse mais intimidade comigo - repliquei hesitante. - Quero dizer, eu sempre contei a ele tudo sobre 
os meus sentimentos por Jack. No entendo por que ele nem sequer comentou comigo que ia convidar a Lydia pra sair. Ns passamos a maior parte da tarde do domingo 
juntos. No foi por falta de oportunidade.
    - Talvez ele no achasse que fosse algo importante o suficiente pra comentar com voc - sugeriu Becky.
    Percebi que ela estava tentando fazer eu me sentir melhor. Ambas sabamos muito bem que um caso com Lydia Joyner eram grandes novas para qualquer garoto, e que 
com certeza no fora por considerar isso algo de pouca importncia que Ethan no comentara nada comigo.
    Outros alunos comearam a passar como uma enxurrada  nossa volta e pareceram se evaporar de repente quando o ltimo sinal soou.
Becky passeou o olhar pelo saguo vazio.
    - Gigi, preciso correr. A aula de educao fsica j deve estar comeando, e vamos ter de fazer uns exerccios malucos subindo por umas cordas penduradas nas 
vigas do ginsio. Ouvi dizer que o professor Henderson acende um isqueiro na sua bunda se voc no subir rpido o suficiente.
- A gente se v na hora do lanche ento? - perguntei.
-        Claro - respondeu ela. - Na mesa de sempre.
Becky foi embora, e eu fiquei sozinha com os meus pensamentos.
    Mas meus pensamentos no eram muito boa companhia naquele momento.
    Enquanto andava lentamente rumo ao laboratrio de qumica, imaginei Ethan tomando um chocolate quente com Iydia Joyner no Espresso Pacifico. Ser que eles iam 
se sentar lado a lado numa mesa perto da janela e ficar olhando as pessoas passarem na rua? Ou se sentariam um de frente pro outro, pra poderem se dar s mos por 
cima da mesa? Ririam juntos? Partilhariam seus sonhos e segredos mais ntimos? Ser que ele a beijaria como... como tinha me beijado? Ser que terminaramos todos 
- eles dois mais Jack e eu - numa espcie de quadriltero amoroso, traindo uns aos outros?
    De repente uma voz firme e irnica interrompeu meus pensamentos.
    -        Senhorita Pelka, me sinto to honrada por ter resolvido
nos agraciar com a sua presena!
    Olhei para a porta aberta da classe e vi a doutora Morgan l parada, com seu amarrotado avental de laboratrio e me olhando por cima de seus culos de armao 
vermelha. Por trs dela pude ver meus companheiros de classe, alguns deles dando risadinhas, outros me fitando com um olhar inexpressivo.
    - No estou com cimes - declarei, continuando a conversa que estava tendo comigo mesma dentro de minha mente e marchando para dentro da classe.
- Perdo? - perguntou a dra. Morgan.
    - H?... Ah, desculpe, doutora Morgan, eu s disse que sinto muito pelo atraso - consertei, olhando ao redor da classe.
    - Desculpas aceitas. Agora mexa-se. Estamos fazendo vrias experincias importantes hoje, e o tempo est curto.
    Me dirigi apressada para o fundo do laboratrio e peguei um lugar na mesa mais distante possvel. Raymonda Dabaday estava sentada perto de mim, e me passou um 
par de culos de proteo.
- Obrigada - sussurrei, colocando os culos no rosto.
    - De nada. Voc est com cara de quem tem mil problemas na cabea.
-        Pode crer que tenho. 
Na meia hora que se seguiu Raymonda fez praticamente sozinha a experincia para ns duas, segurando uma pitada de magnsio com uma esptula diante do bico de bunsen 
e misturando lquidos no bquer e nos tubos de ensaio. Quando as centelhas comearam a saltar, ela anotou os resultados no seu caderno de qumica e me deixou copi-los.
    Eu no conseguia me concentrar no que tinha de fazer, nem tinha a mnima idia do que Raymonda estava fazendo. No conseguia parar de pensar em Ethan, em Lydia 
e no encontro deles dois naquela noite. Que razo eu tinha para sentir cimes? Ethan era apenas um amigo.
    Mesmo assim, eu no conseguia tirar o beijo dele da minha cabea.
    E justo Lydia, dentre todas as garotas! Lydia sempre fora a minha arqui-rival na luta pelo amor de Jack, e nunca fizera muito segredo de que achava que eu no 
pertencia a Winnetka. Winnetka era para as pessoas ricas e bonitas como ela... e Jack.
    Para cima e para baixo, para cima e para baixo. Cime e raiva. Jack e Ethan. Ethan e Jack. Como uma montanha-russa.
Daquele jeito eu ia acabar ficando louca!
    Senti uma irresistvel necessidade de perguntar a Ethan "Por qu? Por que voc vai sair com a Lydia?", mas eu sabia que no tinha o direito de fazer aquela pergunta. 
Tive tambm um desejo intenso de agarrar os longos e belos cabelos dourados de Lydia e torc-los em volta de seu lindo pescoo... Bem, talvez isso fosse um pouco 
drstico demais, mas sem dvida eu queria faz-la sofrer pelo menos um pouco.
    Ento, subitamente, me dei conta de que no podia culpar Lydia de nada. No tinha o menor sentido ficar com raiva dela. Ela no fizera nada de errado. Estava 
simplesmente saindo com um garoto descomprometido que a havia convidado.
    -        Que tal se eu fizer a limpeza? - sugeri a Raymonda, voltan
do  realidade justo quando a experincia estava terminando.
    Eu sabia que apesar de estar com a cabea em outro planeta, pelo menos a limpeza conseguiria fazer.
Raymonda colocou sua mo sobre a minha.
    - Esquea, Gigi - disse ela amavelmente. - Voc est meio confusa, meio ausente. Provavelmente terminaria quebrando um tubo de ensaio ou um bquer e se cortando. 
Se quiser fazer algo, redija a concluso do nosso experimento e j est bom demais. Ok?
- Obrigada, Raymonda.
    De algum jeito, no sei como, consegui tocar o barco at o fim da aula, e nunca fiquei to feliz por ouvir o sinal quanto daquela vez.
    - Se no for indiscrio da minha parte perguntar, o que acontece com voc hoje, Gigi? - disse Raymonda quando toda a classe j saa apressadamente do laboratrio 
e se embolava no corredor apinhado.
- Coisas do amor - confessei.
- Ah, Ethan Chandler, n? - arriscou ela.
-        ... Quero dizer, no. Estou saindo com o irmo dele, Jack.
Uma expresso de surpresa e incredulidade atravessou rosto
de Raymonda, mas logo ela disfarou.
    -        Jack Chandler? Ai, ele  to legal. To bonito, to
divertido, to gentil... Voc  mesmo uma garota de sorte.
Paramos perto do meu armrio.
- , acho que sou - concordei com voz tristonha.
- Espero que tudo se arranje.
- Eu tambm.
    Raymonda acenou um tchau e foi embora. Abri meu armrio e atulhei dentro dele todos os meus livros. Ento peguei minha sacola do lanche, bati a porta com fora 
e tranquei o armrio. Caminhei por todo o trajeto at a cantina como se estivesse num sonho. Um sonho ruim.
    Becky j se sentara no nosso lugar de sempre. Joguei meu lanche sobre a mesa e me sentei ao lado dela.
    - Voc parece em estado de choque - disse ela. - Por acaso  por que voc acha que o Ethan est cometendo o grande erro de sua vida?
    - ... mais ou menos. Mas acho que j consegui colocar tudo sob controle.
-        Mesmo? - disse Becky, sem parecer muito convencida.
Respirei fundo.
    -        Se Ethan e Lydia querem sair juntos, problema deles. Eu
s acho um pouco estranho que um garoto que nunca na vida
teve uma namorada consiga sair com a Lydia j logo de cara.
Talvez Ethan e Jack tenham mais coisas em comum do que eu
imaginava.
    Levantei a vista e vi Andrew Barnes se dirigindo para a nossa mesa.
    - Becky, vou comer l fora - anunciei, pegando meu lanche. - Preciso ficar um pouco sozinha. A gente se v mais tarde?
    - Claro, com certeza. A gente se encontra no mastro da bandeira depois da ltima aula. Vamos caminhando juntas pra casa.
    Quando j tinha me afastado uns dez metros, me virei levemente e vi Andrew se sentando na cadeira que eu deixara livre. Ele deu um rpido beijo na boca de Becky. 
Enquanto os observava ali juntinhos, suas cabeas quase se tocando, pensei no quanto eles combinavam bem como namorados. Perfeio.
Minha vida amorosa no chegava nem perto disso.
    E l estava eu, Gigi Pelka, a chique, a sofisticada, a recm-chegada de Paris, sentada em cima de um saco de papel  sombra do velho olmo do gramado frontal 
da Winnetka High School, comendo um sanduche de carne assada com po amanhecido. Como eu podia ter chegado quele ponto?
    Jack e Ethan. Ethan e Jack. Eu nunca tinha gostado de ningum alm de Jack. Jamais. Nem sequer na oitava srie, quando a maioria das minhas amigas vivia pulando 
de um cara pra outro. Sempre fora Jack. E sempre seria... ou pelo menos assim eu pensara at aquele momento. O problema  que ficar junto com ele no tinha sido 
to incrvel quanto eu sempre imaginara. Sem dvida ele era lindo, charmoso, atltico, e beijava muito bem. Era gostoso ser a namorada de Jack. Era gostoso ser invejada 
por todas as garotas da classe. Mas estava faltando alguma coisa. Havia algo errado.
Dei mais uma mordida no meu sanduche.
    Ethan era um grande amigo. S um amigo. Mas quando Becky me contara a respeito de seu encontro com Lydia, eu sentira um n no estmago. Eu no queria que ele 
sasse com Lydia. Alis, no queria que ele sasse com ningum - me dei conta finalmente - ningum alm de mim.
Mas agora era tarde demais.
    -        Ento me deixe tentar entender isso tudo direitinho -
comeou Becky.
    At aquele instante ela estivera sentada em sua cama, concentrada em fazer as unhas dos ps. Agora me olhava como se no falssemos o mesmo idioma.
    - Quer dizer que voc esperou o dia inteiro pra me contar que depois de passar sete anos alimentando a fantasia amorosa mais excepcional da histria, a mais 
espantosa paixo do sculo XX, descobriu que quando beija Jack Chandler no sente nada?
- Absolutamente nada - admiti com um tom sombrio.
    - Zero? Niente? Rien? E descobriu tambm que quando beija Ethan sente a terra tremer?
    - Ai, Becky... sinto tudo e mais um pouco. L fora, na linha do trem, quando era pra estar com Jack, beijei Ethan e senti...
    No consegui encontrar as palavras para definir aquela sensao maravilhosa, e gesticulei impotente.
- Milhes de estrelas no cu?
- Isso mesmo.
    - E o seu corao comeou a galopar feito um cavalo louco? E voc ficou com falta de ar? E desejou que aquilo continuasse at o mundo acabar?
    - Sim, sim e sim! - gemi. - Acho que desta vez eu realmente baguncei a minha vida, Becky. Me sinto horrvel e maravilhosa, desesperada e feliz, e uma imbecil, 
tudo ao mesmo tempo!
    - Ah, sem essa, Gigi. Nada do que voc est me contando  to trgico nem to confuso assim. Na verdade  bem simples: voc est apaixonada por Ethan. No por 
Jack. Entenda isso de uma vez por todas, menina!
    - Mas no pode ser, Becky! Eu sei que sou apaixonada por Jack, sempre fui. Tenho pensado nele, sonhado com ele e abraado meu travesseiro fingindo que  ele 
desde que me conheo por gente...
    Me levantei e comecei a andar de uma ponta do quarto para a outra.
- Por que voc no consegue simplesmente encarar a
verdade, Gigi? No h a menor dvida de que voc est apai
xonada pelo Ethan, ou no mnimo gostando dele pra caramba.
Por que voc no lhe d uma chance, uma que seja?
    - Por que eu desejei Jack Chandler por toda a minha vida, e agora finalmente ele  meu! No posso simplesmente jogar fora a minha nica chance com Jack.
    - Escute aqui Gigi, o Jack  s uma obsesso que fugiu ao seu controle, alis fugiu totalmente ao seu controle - comeou Becky, gesticulando com o pincel do 
esmalte de unhas bem na frente do meu rosto. - Todas as garotas de Winnetka j tiveram alguma paixonite por ele pelo menos uma vez na vida. E como no teriam? Jack 
 um po, um pedao de mau caminho. Tudo bem, agora voc finalmente o conseguiu. Mas no acho que isso era,  ou ser amor.
    - Ento o que era? Quero dizer, o que ? - corrigi a mim mesma.
    - No sei. Mas essa coisa com o Ethan sim pode ser pra valer, algo real. Talvez um verdadeiro amor. Gigi, por que voc simplesmente no vai at a casa dos Chandler 
e diz ao Ethan pra desmarcar com a Lydia hoje  noite? Conte a ele o que est sentindo. Quem sabe voc no tem uma surpresa...
    - Caia na real, Becky. No  to simples assim. No posso saltar com toda essa facilidade de uma certeza absoluta de ter sentido sei-l-o-qu por Jack durante 
toda a minha vida a uma certeza de estar apaixonada por Ethan - expliquei, estalando os dedos.
    - E por que no, se  isso o que voc realmente sente? - perguntou ela num tom pragmtico.
    - Por que no consigo aceitar a mim mesma como um tipo de pessoa que muda de sentimentos desse jeito, como quem troca de roupa. Como posso ser esse tipo de garota?
    Agora eu andava ainda mais rpido do que antes por toda a extenso do quarto de Becky.
-        Gigi, pare com isso, estou ficando tonta s de olhar pra voc.
Parei.
    - Escute Becky, simplesmente no tem cabimento essa idia de que talvez eu esteja apaixonada pelo Ethan - insisti, me jogando na cama dela. -  impossvel!
    - Aaiii! - Becky guinchou quando colidi com ela fazendo com que pintasse acidentalmente uma linha vermelho-rubi desde a unha do dedo de seu p esquerdo at 
o tornozelo.
Ela pegou acetona e vrios lenos de papel no criado-mudo.
    - Sinto muito, Becky. Agora estou bagunando a sua vida tambm. Ou no mnimo a sua pedicure.
    - Tudo bem, no se preocupe. Ningum vai ver o meu p mesmo, exceto talvez nas aulas de ginstica. Agora responda honestamente a esta questo, sem nenhum "se" 
ou "talvez" e deixando de lado toda essa sua obsesso por Jack. Pronta?
- Acho que sim.
    - L vai: o que h de to terrvel em se apaixonar por Ethan?
- Becky, eu... eu simplesmente...
-        Simplesmente o qu?
Respirei fundo.
    - No quero ser uma volvel! No quero pensar isso de mim mesma. Eu no sou como...
- Como Jack? - perguntou ela, me interrompendo.
- Ora, Becky, ele no  to mau assim...
    Ela inclinou a cabea para a frente, concentrada em limpar a mancha de esmalte em seu p.
    -        Bom, pois fique sabendo que nesse ano que voc passou
fora ele foi to mau assim, sim senhora. No mencionei isso nas
minhas cartas porque no queria chatear voc, mas Jack Chandler
no foi exatamente um monge enquanto voc esteve em Paris. No
estou dizendo que ele no tenha sentimentos autnticos por voc
agora. Pode at ser que tenha mudado. Mas voc tambm mudou.
No  a mesma garota que foi embora um ano atrs. Viu um
pouquinho mais desse mundo. Fora de Winnetka, Jack Chandler 
apenas mais um garoto bonito, no o centro do universo. Talvez
voc tenha mudado o suficiente para estar pronta para Ethan de
uma maneira que antes no estava - proclamou Becky, fechando
a tampinha do vidro de esmalte.
    Minha mente rodopiava a mil. O que aconteceria se eu fosse mesmo at a casa dos Chandler e terminasse meu namoro com Jack? Se dissesse a Ethan que queria ser 
algo mais do que s uma amiga para ele? Se pedisse a ele para esquecer Lydia Joyner e comear a pensar em mim, s em mim? E se... e se a Terra fosse subitamente 
engolida pelo Sol?
    - Volte  Terra, Gigi. Volte  Terra, Gigi. Vamos, volte  Terra! - disse Becky, passando a palma da mo diante dos meus olhos e interrompendo os meus devaneios.
    - Desculpe, viajei na maionese... - falei com voz mole, sacudindo a cabea para tentar clarear os meus pensamentos. - H s um probleminha no seu plano, Becky.
- E qual ?
- O Ethan no quer sair comigo.
- T bom, e a lua  feita de queijo.
    - No, Becky,  srio. Ele s tem sado comigo ultimamente por que o Jack pediu. Tenho certeza de que ele gosta da Lydia h muito tempo e s no fez nada at 
hoje porque ela e Jack estavam juntos at poucas semanas atrs, mesmo sendo uma relao do tipo vai-e-vem. Mas agora que ele viu que Jack e eu estamos firmes, achou 
que tinha o direito de abordar a Lydia. E tem mesmo.
- Lydia? Ah! Ele sempre fez um monte de piadas sobre ela!
    - S por minha causa, pode crer. Ethan sabia como eu me sentia com relao a ela. Mas agora ele no precisa mais esconder seus sentimentos por Lydia. E talvez, 
s talvez, ela sinta o mesmo por ele.
    - Duvido muito que Lydia Joyner tenha tido algum sentimento sincero em toda a sua vida. E me recuso a acreditar que Ethan tenha alimentado uma paixo secreta 
por Lydia durante todos esses anos.
- E por que no? Ela  linda, e...
- E voc tambm ! - interrompeu Becky.
    - T bom, t bom - desisti com um suspiro - Ei, acho que acabei de descobrir porque no sinto nada quando beijo o Jack.
- Ah ? E por qu?
    -        Porque fico muito nervosa. Sabe, eu no beijei muitos
garotos na minha vida. Talvez eu simplesmente ainda no saiba
direito como fazer, como reagir...
    -        Tambm foi a sua primeira vez com o Ethan, e parece que
voc fez um timo servio - argumentou ela com uma leve
ironia.
    Becky esperou por alguma reao minha. Como no falei nada, ela continuou.
    - Tudo bem, Gigi, talvez voc esteja certa. Talvez voc s precise de mais alguns beijinhos de treinamento com o Garoto Maravilha. Eu beijei o Andrew na noite 
de sbado, e no comeo foi mesmo meio atrapalhado.
    - Srio? Eu vi como ele olhou pra voc na cantina. Ento vocs dois so oficialmente um casal agora?
    - Estamos indo com calma. Eu no sou como voc, Gigi. No fico apaixonada por tudo e por todos to facilmente. Mas a gente se beijou sim. Algumas vezes. E no 
fim a gente acabou pegando o jeito da coisa.
    Soltei um gritinho de alegria. Becky se limitou a dar um sorriso malicioso, como se tivesse feito alguma grande travessura.
- Isso  demais, Becky! - exclamei.
    - timo. Agora suma daqui. O Andrew est vindo pra fazer a lio de casa comigo.
    - Claro, claro, lio de casa. Aposto qualquer coisa como vocs no vo ter feito nem uma linha de lio at a noite.
Peguei minha bolsa e andei at a porta.
    -        Obrigada por me contar essas coisas sobre voc e o
Andrew, Becky. Acho que ajudou. Talvez eu ainda tenha alguma
chance de ser feliz no amor - falei ao sair.
Mas com quem?
    Exatamente s seis e quinze daquela tarde vi Ethan sair de sua casa, respirar fundo e ficar parado de p ao lado de seu jipe por um longo momento.
    Eu o espionei por vrios minutos da janela do meu quarto. Ele parecia estar se deleitando com o spero e fresco ar de outono. Ser que ansiava ardentemente pela 
noitada que o aguardava? Sua grande noite com Lydia Joyner?
    Ethan alisou seus cabelos com a mo direita para trs da testa por vrias vezes e depois mordeu o lbio inferior. Reconheci imediatamente aquele tique dele, 
algo que sempre fazia quando estava nervoso.
- Estamos os dois nervosos - pensei em voz alta.
    Por fim Ethan ia sair com o grande amor da sua vida. Eu devia estar me sentindo feliz por Ethan, j que finalmente ele estava abandonando sua concha. Alm do 
mais, eu tambm tinha um encontro com o grande amor da minha vida naquela noite.
Ento por que me sentia to miservel?













































   Capitulo 9 - Amargas concluses ... e um corao partido
    
    
    
    
    
    Me afastei da janela pouco depois que Ethan partiu em seu jipe. Eu tinha ficado olhando para o vazio por uns bons quinze minutos depois que ele se fora, e com 
isso no me sobrara muito tempo para trocar de roupa. Vesti um colete azul-marinho que tinha comprado com Vronique, trancei meu cabelo rapidamente e peguei uma 
malha de moletom na cmoda. Por fim calcei minhas botas de caubi e desci apressada para o andar de baixo.
- Tchau, pai! - gritei enquanto corria para a porta da frente.
    - Hmmff - grunhiu ele, sem sequer levantar a vista do teclado do computador.
    Atravessei o grande terreno do quintal dos Chandler e entrei pela porta da cozinha da manso. Eu sabia que o sr. e a sra. Chandler tinham sado para jantar fora, 
e a empregada no trabalhava nas teras-feiras.
-        Oi, Gigi! - vociferou Jack de algum ponto da casa.
    Segui o som de sua voz e o encontrei confortavelmente sentado em uma poltrona de couro da sala de televiso. Havia uma travessa de batatas fritas e vrias latas 
de soda esparramadas na frente dele. Um fogo aconchegante crepitava na lareira, e o enorme aparelho de tev estava ligado.
    - Oi - cumprimentei, me sentando perto dele. - O que voc est assistindo?
    - O teipe do nosso ltimo jogo - respondeu ele, mal desgrudando os olhos da tela. - Acho que vou mudar de posio, pro ataque.
    -        Por qu? - perguntei, enquanto via Jack dando um
enorme salto no telo para evitar uma cobertura.
    Ele congelou a imagem apertando um boto no controle remoto e me olhou.
    - Apesar de no fim termos ganho o jogo, camos muito de rendimento no segundo tempo - explicou pacientemente. - Fiquei aqui estudando as fitas pra tentar descobrir 
o que deu errado. A empresa de tev por assinatura local grava todos os nossos jogos, e fiz um acerto com eles pra me mandarem uma cpia todas as semanas, a cada 
novo jogo.
- E a voc fica se assistindo durante horas?
    - Ah, sem essa Gigi, no  narcisismo. No duro.  o meu trabalho. Quero ser o melhor capito de time possvel. E isso envolve muito mais coisas do que voc imagina. 
Tenho de estudar o outro time, e analisar todas as minhas boas e ms jogadas nas outras partidas. Preciso aprender com os meus erros. Ser capito no  s dar uns 
gritos de estmulo durante os treinos e depois chegar no campo e lanar a bola esperando que algum a pegue.
-        , tem razo. Acho que eu nunca tinha pensado nisso antes.
Jack levava o rgbi a srio. Ele no era apenas um bruta-
montes qualquer que queria sair pelo campo esmagando cabeas e joelhos. O que o atraa naquele esporte era a estratgia, o aspecto intelectual da coisa. Apreciei 
aquilo.
    - De maneira que essa  a minha lio de casa nesta noite: assistir o segundo tempo - concluiu ele.
    - Ento eu podia dar um pulo l em casa e pegar os meus livros de matemtica - brinquei. - Faramos as nossas lies juntos, voc assistindo tev e eu mergulhada 
nos livros.
Ele sacudiu a cabea.
    -        De jeito nenhum. Lio de casa  pra mais tarde. Agora
que tenho voc aqui, s consigo pensar em uma coisa - disse ele
com um sorriso malicioso enquanto deslizava sua mo pelo meu
brao acima.
    Quando atingiu a altura do meu ombro, me puxou para perto de seu corpo.
- E que coisa  essa? - perguntei, como se no soubesse.
    - Isto - respondeu ele baixinho, seus lbios j quase tocando nos meus.
    Ele congelou a imagem apertando um boto no controle remoto e me olhou.
    - Apesar de no fim termos ganho o jogo, camos muito de rendimento no segundo tempo - explicou pacientemente. - Fiquei aqui estudando as fitas pra tentar descobrir 
o que deu errado. A empresa de tev por assinatura local grava todos os nossos jogos, e fiz um acerto com eles pra me mandarem uma cpia todas as semanas, a cada 
novo jogo.
- E a voc fica se assistindo durante horas?
    - Ah, sem essa Gigi, no  narcisismo. No duro.  o meu trabalho. Quero ser o melhor capito de time possvel. E isso envolve muito mais coisas do que voc imagina. 
Tenho de estudar o outro time, e analisar todas as minhas boas e ms jogadas nas outras partidas. Preciso aprender com os meus erros. Ser capito no  s dar uns 
gritos de estmulo durante os treinos e depois chegar no campo e lanar a bola esperando que algum a pegue.
-        , tem razo. Acho que eu nunca tinha pensado nisso antes. 
Jack levava o rgbi a srio. Ele no era apenas um brutamontes qualquer que queria sair pelo campo esmagando cabeas e joelhos. O que o atraa naquele esporte era 
a estratgia, o aspecto intelectual da coisa. Apreciei aquilo.
    - De maneira que essa  a minha lio de casa nesta noite: assistir o segundo tempo - concluiu ele.
    - Ento eu podia dar um pulo l em casa e pegar os meus livros de matemtica - brinquei. - Faramos as nossas lies juntos, voc assistindo tev e eu mergulhada 
nos livros.
Ele sacudiu a cabea.
    -        De jeito nenhum. Lio de casa  pra mais tarde. Agora
que tenho voc aqui, s consigo pensar em uma coisa - disse ele
com um sorriso malicioso enquanto deslizava sua mo pelo meu
brao acima.
    Quando atingiu a altura do meu ombro, me puxou para perto de seu corpo.
- E que coisa  essa? - perguntei, como se no soubesse.
    - Isto - respondeu ele baixinho, seus lbios j quase tocando nos meus.
    Fechei os olhos, mas em vez de visualizar Jack, uma imagem de Ethan inundou a minha mente.
Ethan...
    Enquanto Jack me beijava pensei no que Becky me dissera. Ser que eu tinha perdido totalmente o controle sobre a minha obsesso por Jack? Ser que isso me impedira 
de enxergar a verdade? Seria possvel que eu realmente estivesse apaixonada por Ethan?
    Ethan... que naquele exato momento devia estar em pleno idlio com Lydia Joyner no Espresso Pacifico.
    Sem que eu sequer tivesse notado, os lbios de Jack j haviam deixado os meus. Agora ele olhava ansiosamente para o aparelho de tev. Mas no me senti nem um 
pouco ofendida com aquilo. Na verdade, fiquei aliviada.
    - Ei Jack, que tal a gente ver de novo o primeiro tempo? - sugeri. - Voc poderia me mostrar todas as partes importantes e explicar as jogadas.
    - Tive uma idia ainda melhor: que tal a gente ver o segundo tempo? Foi nele que a coisa realmente esquentou - props Jack entusiasticamente.
    Sem nem esperar pela minha resposta, ele agarrou apressado o controle remoto e apertou o boto de avano. Em segundos estvamos os dois assistindo Jack correr 
como um bfalo pelo telo, e entre vorazes bocados de batatas fritas e vidos goles de soda ele ia me explicando cada jogada. No fiquei nem um pouco surpresa em 
descobrir que Jack era o heri de todas elas. E enquanto ele continuava a se auto-elogiar, a me contar como tinha sido brilhante naquele passe, forte naquele bloqueio, 
rpido e determinado naquele ataque, comecei a me perguntar se no fim das contas Jack era mesmo o garoto dos meus sonhos.
    Naquele momento o vi subitamente sob um outro ngulo: de repente ele me pareceu um babaca, um brutamontes inseguro e egocntrico que precisava ser constantemente 
reassegurado de que era o melhor. Em tudo.
    Bebi as ltimas gotas de soda do meu copo e reparei nas horas que o antigo relgio no canto da sala marcava. Dez e meia da noite. Eu tinha de cair fora dali 
antes de que Ethan voltasse do seu maravilhoso encontro com Lydia. Meus sentimentos por Jack estavam mudando muito rpido. Eu precisava de um tempo para colocar 
as idias em ordem. Sozinha, sem os irmos Chandler por perto.
- Bom, acho que vou indo - anunciei me levantando do sof.
    - No, espere! Voc tem de ver esta jogada de qualquer jeito! - disse Jack, apontando para o telo. -  a melhor. Eu salvei totalmente o time de...
    - Sinto muito, Jack, eu realmente preciso ir - repeti com mais firmeza.
    - Mas voc vai perder a melhor parte, absolutamente a melhor! Os dois minutos finais so inacreditveis. Estamos ganhando s por um ponto, e a o outro time 
vem feito uma avalanche. Justo quando eles esto quase conseguindo marcar, eu...
    - Fica pra outra vez, t bom, Jack? - interrompi, andando em direo  porta. - Agora preciso fazer a minha lio.
    - Ento traga seu material pra c. Eu tiro o som da tev e voc pode trabalhar sossegada.
    Sacudi a cabea dizendo que no. Era bvio que Jack no queria ficar sozinho de jeito nenhum, e antes daquela noite eu jamais poderia me imaginar no querendo 
ficar sozinha com ele.
    Desejei poder confessar a verdade a Jack - que meus sentimentos por ele estavam mudando, mesmo contra a minha vontade. Eu estava comeando a duvidar de que o 
que sempre sentira por ele era amor de verdade. Mas no podia lhe dizer isso ainda. E certamente no podia lhe confessar a verdadeira razo pela qual no queria 
ficar mais nem um minuto naquela casa: que eu desconfiava estar me apaixonando por Ethan e no queria dar de cara com ele quando ele voltasse de seu encontro com 
Lydia Joyner.
    Alm do mais, e se Ethan trouxesse Lydia junto? E se eu topasse com os dois danando na varanda da piscina quando fosse atravessar o quintal dos Chandler rumo 
a minha casa? E se eu interrompesse o beijo deles da mesma maneira que Ethan tinha interrompido aquele beijo entre mim e Jack?
    Eu j tinha quase chegado  porta da sala de televiso quando notei a expresso de sofrimento no rosto de Jack e me reaproximei da poltrona em que ele continuava 
sentado.
    -        Sinto muito, Jack. Eu sei que  um saco ficar preso aqui o
dia inteiro.
            ,  uma droga mesmo - concordou ele, mastigando uma
batata frita.
    -        Mas eu simplesmente no consigo resolver problemas
difceis de matemtica com algum perto de mim - expliquei,
usando a primeira desculpa que me passou pela cabea e espe
rando que ela me tirasse dali sem ferir os sentimentos de Jack. -
E no h nada mais difcil do que trigonometria.
    - Mas antes voc ia trazer a sua lio pra fazer aqui, lembra? Por que agora no d mais? - ele insistiu. - Ficou muito tarde pra eu chamar outra pessoa pra 
me fazer companhia.
    - Preciso ir, srio - repeti pelo que me pareceu ser a dcima vez, j comeando a ficar irritada.
    - T, t bom - se resignou ele, pegando firme na minha mo. - Deixo voc ir depois que me der um ltimo beijo.
    Ento Jack me puxou com tanta fora que acabei caindo no colo dele. Uma de suas mos segurava a minha cintura, e a outra forava a minha cabea para baixo, na 
direo de seu rosto.
-        Jack, no, voc est machucando...
Foi justamente nesse momento que Ethan entrou. Me apartei apressadamente de Jack.
    -        E ento, como estava a Lydia? - perguntou ele, se
ajeitando na poltrona.
- Bem - respondeu Ethan, encolhendo os ombros.
    - Preciso ir pra casa terminar a minha lio - expliquei afoita a Ethan, me levantando com a mxima dignidade possvel naquelas circunstncias e tornando a andar 
em direo  porta.
    - Vou pegar o seu casaco - se prontificou Ethan, me seguindo.
- Eu no trouxe casaco - repliquei.
    Por que Ethan sempre achava que tinha de tomar conta de mim? Desejei que ele me deixasse em paz, que me esquecesse. Agora ele tinha Lydia.
- Quer que eu empreste um pra voc?
- No, obrigada.
- Est fazendo um vento de arrepiar l fora - ele insistiu.
    - S preciso atravessar o quintal. Acho que posso sobreviver sem um casaco.
    - Ei, o que acontece entre vocs dois? Por que voc est rosnando desse jeito pro Ethan, Gigi? - perguntou Jack, intrigado.
    - No estou rosnando pra ningum - rosnei. - Simplesmente no quero o casaco dele, ponto final.
    - Tudo bem - disse Ethan, com seu rosto ficando vermelho de raiva.
    -        Ento tudo bem - arremedou Jack, inconsciente dos
olhares hostis que Ethan e eu continuvamos a trocar. - Alis,
Gigi, no se esquea de que o Ethan vai levar voc  pea da Becky
amanh  noite, t legal?
    Ah, grande!, pensei.  exatamente disso que estou precisando: mais tempo perto de Ethan. Como se a minha vida j no estivesse complicada o bastante.












Capitulo 10 - Gritos, Lgrimas e dor 




    -        Por favor, pai, me deixe voltar pra Paris - implorei na
tarde do dia seguinte.
    Eu tinha feito um srio, porm um pouco desesperado exame da situao naquele dia. E agora, menos de quarenta e cinco minutos antes de Ethan vir me pegar para 
irmos ver juntos a pea de Becky, eu finalmente encontrara a soluo para todos os meus problemas.
    - Mas Gerolyn, voc acabou de voltar pra casa! - disse meu pai, salvando o documento em que estava trabalhando no computador e me olhando de frente. - E eu senti 
tanto a sua falta no ano passado...
- Eu tambm senti a sua falta, pai.
- Ento por que voc j quer ir embora de novo?
    Como eu podia contar a verdade a ele? Como podia lhe dizer que temia estar apaixonada pelo irmo do meu namorado?
    - No sei - respondi, encolhendo os ombros. - Acho que seria bom pra mim. Eu aperfeioaria o meu francs e aprofundaria os meus conhecimentos da cultura europia.
    - Mas j foi exatamente essa a razo pra voc passar um ano em Paris! No vai ser motivo pra outro ano no exterior. Alm do mais, estamos no meio de setembro. 
O ano letivo j comeou. A esta altura seria impossvel conseguir a aprovao de alguma escola l.
    - Eu poderia simplesmente ir por minha prpria conta. No preciso de um programa especfico. Poderia voltar pra Escola Internacional. E tenho certeza de que 
poderia morar com os Thibault. Sinto falta deles, e da Vronique. Se o problema for o dinheiro, talvez eu possa conseguir uma bolsa...
    - No  o dinheiro, meu amor. E o princpio. Voc acabou de chegar, e acho que s precisa de um pouquinho mais de tempo pra se readaptar. Eu sei que no d pra 
comparar Winnetka com Paris, mas quero que voc se d uma chance antes de pensar em voltar para a Frana.
    - E que tal a Inglaterra ento? Talvez voc pudesse falar com algum dos seus colegas de algum grupo ambientalista de l pra me arranjar um estgio. Na verdade 
estou muito interessada em preservao ambiental.
Receei ter soado to desesperada quanto de fato me sentia.
- Gerolyn, o que est acontecendo?
    - Papai, me sinto horrvel aqui! - gritei. -J que voc no me deixa ir, acho que a gente devia pelo menos considerar a possibilidade de mudar de casa. Est 
na hora de termos uma casa de verdade, no uma casa nos fundos da manso de algum. Antigamente esta casinha era a cocheira dos Chandler! Ser que a gente no merece 
algo um pouquinho melhor?
    Ele desviou o rosto para o outro lado, ferido pelas minhas palavras.
    Eu sabia que tinha atingido um ponto delicado. Meu pai amava a nossa casa. Ela continha a memria da minha me, agora morta h mais de uma dcada.
-        Pai, me desculpe, sinto muito. Eu no queria magoar voc.
Me larguei na nossa velha cadeira de balano. Ele tirou seus culos e os limpou com um leno de papel.
    -        Vamos, Gerolyn, me diga de uma vez o que est
acontecendo aqui. Voc parecia em pleno xtase quando voltou
do baile no sbado. E no domingo estava praticamente soltando
fascas de felicidade quando voltou de patinar com Ethan. No
consigo entender. Por acaso algum garoto na Frana partiu o seu
corao, ou qualquer coisa do gnero?
    - No - respondi. - Ningum na Frana partiu o meu corao.
- E tem algum aqui criando problemas pra voc?
- No - menti. - Bem... talvez. Na verdade, tem sim.
- Por acaso esse algum  o Ethan? - insistiu ele, franzindo os olhos.
    No tive nenhuma dvida de que se Ethan houvesse batido na nossa porta naquele exato momento, se veria em srios problemas com meu pai.
- Em parte - respondi. - Mas no  s ele.
- E  por causa dele que voc quer ir embora de novo pra Paris?
    - . Por causa dele e de Jack. E dos meus sentimentos absolutamente confusos.
    - Gerolyn, fugir dos prprios sentimentos nunca d certo. Voc tem de enfrentar as suas emoes e saber lidar com elas com maturidade. E saber lidar com as pessoas 
envolvidas tambm.
    Ah, no!, pensei, L vem o sermo. Agora no vou mais conseguir me arrumar a tempo pra ir  pea com o Ethan.
    -        Filhinha, voc no sabe que se tem um problema, ir
embora pra outro lugar no  a soluo? O problema sempre vai
junto, aonde quer que voc v. A soluo  encarar ele de frente,
com coragem.
    Meu pai sempre caa no psicologismo quando se tratava de questes afetivas.
-        Sei disso, pai.
    Eu estava a ponto de desistir da discusso e comear a pensar num jeito de economizar o dinheiro necessrio para comprar a minha passagem de avio quando meu 
pai pegou na minha mo.
    -        Filhinha, tudo bem, se  assim to importante, voc pode
voltar pra Frana...
    No consegui acreditar nos meus ouvidos. Eu podia ir! Me agarrei a cada tomo do meu autocontrole para no dar um pulo no ar com um grito de vitria.
-        Obrigada papai! Voc  o melhor...
- ... em janeiro - concluiu ele. Janeiro!? Meus ombros desabaram.
- Mas, pai! Por que no posso ir j? - gemi.
    -        Voc tem de acabar o semestre escolar aqui primeiro.
Alm do mais, eu acho que seja l qual for o problema em que
voc se meteu, provavelmente j vai estar resolvido at janeiro.
Ento voc poder ir para a Frana, Inglaterra, Austrlia, qualquer
lugar que quiser, mas estar indo porque quer ir, e no para fugir
de algo.
Ele se voltou novamente para a tela do computador e recomeou a trabalhar em seu documento. Eu mordi o meu lbio inferior.
- Janeiro ou nada - foi a ltima palavra dele.
- Tudo bem, pai, que seja janeiro ento.
Havia s um problema: janeiro ficava a uma vida de distncia.
Querida Vronique,
    Sei que provavelmente voc est muito ocupada, mas por favor, POR FA VOR, escreva e me diga o que fazer.
Lembra-se de Ethan? Bom, pois eu acho que estou apaixonada por ele.
    No consigo acreditar que agora que finalmente conquistei Jack Chandler estou querendo namorar com o irmo dele, Ethan. Mas Ethan est saindo com a ex-namorada 
de Jack, Lydia.
    Eu ainda gosto do Jack. Ainda acho que ele  lindo, charmoso e tudo mais. Mas no  o cara perfeito que eu pensava que fosse quando estava a em Paris. Na verdade, 
ele est longe de ser perfeito.  egocntrico, inseguro, precisa constantemente de um pblico pra se sentir bem consigo mesmo... E daria pra continuar a lista por 
um bom tempo, pode acreditar.
    Ser que eu deveria ficar com o Jack mesmo assim? Talvez isso tudo seja s uma fase, e na semana que vem eu perceba que ainda estou perdidamente apaixonada por 
ele.
    J aconteceu algo parecido com voc? Se apaixonar e desapaixonar desse jeito?
Me escreva logo! Estou desesperada!
Beijos carinhosos,
Gigi
    Ainda me restavam alguns minutos antes de Ethan vir me pegar para irmos ao teatro. Eu ainda tinha tempo de escapar daquele programa. Peguei o telefone e digitei 
o nmero dele. Poucos segundos depois ouvi sua voz no aparelho.
    -        Oi, Ethan, escute, realmente sinto muito, mas no posso
ir com voc  pea da escola nesta noite - falei afoita.
    Eu tinha at considerado a possibilidade de dizer que estava doente, mas fiquei com medo de ele bater na porta da minha casa com uma tigela de sopa e uma caixinha 
de pastilhas para tosse.
- Assim de repente? Por qu? - perguntou ele, surpreso.
    - Simplesmente no estou com vontade. No  um motivo bom o suficiente?
- Tem algo a ver com o Jack?
    - , tem algo a ver com o Jack. Pelo menos em parte. E em parte tem a ver comigo... e com voc. No faz muito sentido, n?
    Desejei que Ethan dissesse algo, qualquer coisa, em vez de me deixar balbuciando palavras sem nexo no telefone como uma luntica em pleno delrio. Mas ele ficou 
em silncio. Eu escutava somente o som suave de sua respirao. Me lembrei da ltima vez que tinha ouvido aquele som bem perto do meu ouvido...
    Uma imagem de ns dois nos beijando apaixonadamente do lado de fora do ginsio da escola naquele sbado do baile explodiu como um flash na minha mente. Meu corpo 
reviveu por uma frao de segundo as sensaes que haviam fludo por ele quando os lbios de Ethan tinham tocado os meus.
Tentei afastar o tremor da minha voz.
    -        Simplesmente no me sinto bem saindo com voc.  tudo
muito complicado pra explicar pelo telefone, mas tambm no
estou a fim de explicar pessoalmente.
    Eu sabia que se o visse terminaria em seus braos... os mesmos braos que provavelmente tinham enlaado o corpo de Lydia Joyner no Espresso Pacifico na noite 
anterior.
    - Mas e a Becky? Ela vai ficar superdecepcionada se voc no for.
    - Posso ir outra dia. H quatro apresentaes ao longo da semana. Becky vai compreender perfeitamente se eu perder uma delas.
- Se o tornozelo de Jack estivesse melhor, ele levaria voc...
-        No me diga o que o Jack faria! - interrompi brava. 
Silncio total.
    -        Tudo bem - disse Ethan por fim. - Ento por que voc
no me conta a verdadeira razo pela qual no quer me ver
nesta noite?
    Andei at a janela do meu quarto e raivosamente varri com a mo o largo parapeito, mandando para o cho toda a coleo de bichos de pelcia que meu pai tinha 
me comprado ao longo de vrios anos. Me sentei no parapeito, fechei os olhos, e senti as lgrimas comearem a rolar pelas mas do meu rosto.
    Como eu podia lhe dizer que no queria v-lo porque achava que tinha me apaixonado por ele e agora ele j estava com outra pessoa?
    -        Ethan, no quero entrar nesse assunto agora. D pra
simplesmente deixar quieto?
    Apoiei meu rosto na vidraa fria, abri meus olhos de novo, e no pude acreditar no que vi.
-        Ethan! O que voc est fazendo a!?
    Bem ali, a poucos centmetros da minha cara, do outro lado do vidro, os olhos castanhos de Ethan fitavam intensamente os meus. Em sua mo, o telefone sem fio.
    - Pulei o porto em frente  porta da sua cozinha, trepei pela calha at o teto do caramancho, e aqui estou - explicou ele pelo telefone. - No  to fcil 
quanto era quando eu tinha doze anos de idade. Lembra quando tentei fazer voc acreditar que estava nevando em pleno julho jogando talco na sua janela? Alm do mais, 
com um telefone sem fio na mo foi quase impossvel subir at aqui. Portanto, voc vai fazer o favor de me deixar entrar, ou pretende me deixar plantado aqui de 
p no telhado a noite inteira?
- Ah... claro, entre - respondi atordoada.
    Desliguei o telefone, abri a janela, e ele saltou para dentro do meu quarto.
- Obrigado, senhorita Pelka - disse ele.
    - Ethan, por que voc est tornando as coisas to difceis pra mim? - perguntei.
    Me sentei na cadeira da minha escrivaninha, o lugar mais seguro em meu quarto. Se me sentasse em qualquer outro lugar, ele provavelmente se sentaria perto de 
mim, e ento eu nunca conseguiria fazer o que tinha de fazer, dizer o que tinha de dizer: que no queria mais que ele sasse comigo porque Jack o pressionava a fazer 
aquilo e porque sentia pena de mim.
    -        Eu s pretendia convencer voc a desistir de escapar da
pea da Becky - disse Ethan, andando na minha direo. -
Vamos nos divertir, prometo.
    - Estou voltando pra Paris - joguei. - Meu pai disse que posso passar mais um ano l. Vou embora em janeiro.
    - Uau! - exclamou ele, se sentando na minha cama com uma expresso de choque. - O que levou voc a tomar essa deciso to radical? Pensei que voc e o Jack...
    - Esquea tudo quanto a mim e Jack. Ele est usando voc, Ethan. Voc precisa viver a sua prpria vida. Saia com a Lydia, namore, divirta-se - disparei, olhando 
para o cho.
    - Ah, Gigi... - suspirou Ethan. - Tenho uma confisso pra fazer. - Ele respirou fundo. -  verdade - continuou -, o Jack est me usando, mas no  essa a verdadeira 
razo pela qual tenho concordado em sair com voc no lugar dele.
Meu estmago deu um n.
    -        Sei muito bem como voc se sente com relao a Jack -
prosseguiu Ethan - como sempre se sentiu... Mas andei me
aproveitando desse tornozelo deslocado dele pra passar mais
tempo com voc. Pra tentar mostrar algo a voc...
    Pra me "mostrar algo"? Podia isso ser verdade? Estaria Ethan sentindo a mesma coisa que eu? Ser que ele queria me mostrar o quanto se importava comigo?
    -        Tenho me aproveitado de toda a situao. Eu devia ter
levado voc direto pra nossa casa depois que Jack se machucou no
baile. No devia ter danado com voc. No devia ter segurado
voc at altas horas no Depot. Devia ter me lembrado de colocar
a tampinha de volta na garrafa de soda. E tambm no tinha a
mnima idia se Jack levaria ou no flores pra voc naquela noite.
Ele nunca fez isso por nenhuma de suas namoradas, e no sei se
teria feito por voc.
    Senti uma sbita punhalada de dor quando me dei conta de que na verdade Ethan no quisera danar comigo, passar seu tempo comigo ou me beijar porque realmente 
gostava de mim. No, no fora por mim, de jeito nenhum. Ele simplesmente queria provar sua teoria: que seu irmo era um traste, indigno de mim.
    -        Quer dizer que voc gastou todo o seu fim de semana s
pra me provar que o Jack  um babaca? Que eu poderia ser
igualmente feliz com qualquer outro cara do mundo?
    - No, Gigi,  o Jack quem poderia ser feliz com qualquer outra garota do mundo - respondeu Ethan em voz baixa.
    - Bem, pois ento fique sabendo que voc entendeu as coisas muito mal, Ethan. Jack e eu nos importamos de verdade um com o outro - bradei com uma imponente segurana, 
mesmo no acreditando nem sentindo mais nada daquilo. - E no vamos deixar ningum se atravessar no nosso caminho. No consigo acreditar que voc traiu o seu prprio 
irmo! Isso sem falar em mim. Sempre pensei que fssemos amigos.
    - Tudo bem, Gigi. Ento vamos falar um pouco sobre traio. Venha c, d uma olhadinha pela sua janela. Voc consegue enxergar dentro da nossa sala de televiso? 
- perguntou ele com aspereza, me encarando duramente enquanto apontava para sua casa. - Me diga o que v l.
    Consegui distinguir vagamente duas formas difusas no sof, duas pessoas assistindo tev. Uma era obviamente Jack. Seu p estava erguido, apoiado em uma banqueta, 
e um de seus braos estava em volta de... de Karen Haupt! Enquanto observava, eu o vi pux-la para perto de seu corpo, como costumava me puxar, e beij-la vorazmente. 
Eles ainda estavam se beijando quando meus olhos ficaram molhados demais pelas lgrimas para conseguir enxergar.
Ethan pousou sua mo sobre meu ombro.
    - Gigi, no  que o Jack queira conscientemente sacanear voc. Ele apenas no tem a menor noo do que seja se importar com algum e colocar os sentimentos dessa 
pessoa em primeiro lugar, acima dos dele prprio - disse Ethan em um tom calmo e plano.
    - Karen Haupt? - falei com voz estrangulada, engolindo minhas lgrimas com dificuldade.
    - Eu tentei advertir voc sobre isso, Gigi, sobre como Jack trata as garotas. Mas voc no quis me ouvir...
    - Ento era isso o que voc queria me "mostrar"? Era isso o que voc estava tentando me dizer quando me beijou na noite do baile? - perguntei aos gritos.
    Eu me sentia to furiosa com Jack e to humilhada por Ethan que teria sido capaz de estrangular os dois ao mesmo tempo com prazer.
    - Quer dizer que voc estava s tentando me mostrar como  fcil para um garoto beijar uma menina sem realmente gostar dela? - continuei. - Isso foi realmente 
muito baixo e sujo da sua parte, Ethan! Como voc pde me convencer de que era um bom amigo? Por que voc simplesmente no cuida da sua prpria vida e deixa os outros 
em paz?
- Porque no quero ver voc machucada. E porque...
    - J estou bem crescida! - berrei. - Posso cuidar muito bem de mim mesma! No fico machucada assim to fcil, a no ser por grandes manipuladores como voc!
    Me levantei e comecei a andar furiosamente, nervosa demais para ficar sentada.
    - Ah, que timo! Ento voc acha que fui eu quem machucou voc? - rebateu Ethan. - Tudo bem, pois preste ateno nisto, garota: Jack vai amar voc desesperadamente, 
profundamente e eternamente por mais umas duas semanas. Ento vai tropear com alguma outra menina na escola ou na rua e sentir a mesma coisa por ela. E a voc 
vai ficar arrasada, porque os seus sentimentos por ele tero se aprofundado ainda mais at l. Sei que fiz algumas coisas imperdoveis nestes ltimos dias, Gigi, 
mas s as fiz pra proteger voc. E no me arrependo nem um pouco.
- Quer dizer que voc fez tudo o que fez s pra me proteger?
- .
    - Muito bem, pois eu no preciso da sua proteo! Agora suma daqui! - gritei, escancarando a janela e jogando o telefone sem fio dele pelos ares.
    O aparelho ricocheteou no teto do caramancho e se espatifou no caminho de paraleleppedos do nosso pequeno jardim.
    Ficamos nos encarando duramente por um longo e ator-doante minuto.
- Vou pela escada - disse ele por fim, sereno.
    - No senhor, no quero voc dentro da minha casa nem mais um segundo. Pode ir saindo por onde veio - ordenei.
    Ethan me olhou como se fosse tentar me dissuadir, mas deve ter percebido que no ia conseguir nada. Se levantou lentamente e caminhou at a janela. Antes de 
sair, parou na minha frente.
To perto do meu corpo quanto estivera uma frao de segundo antes daquele estonteante beijo no baile da escola.
Mas desta vez no havia nenhuma ternura no ar. S raiva.
    Vacilei momentaneamente sob seu olhar, sob a intensidade daqueles olhos castanhos. Mesmo naquele instante de clera e mgoa, no pude eludir os sentimentos profundos 
que os olhos de Ethan me provocavam.
    Me senti to confusa. Por um lado, estava furiosa com ele. Por outro, no podia deixar de admitir que Ethan me fizera um favor ao me ajudar a enxergar Jack como 
ele realmente era.
    -        Quer dizer... quer dizer que voc fez tudo isso por mim? -
repeti com voz sufocada, porm agora tentando enxergar a atitude
de Ethan como sinal de um afeto especial dele para comigo.
    Continuamos a nos encarar, mas ele foi o primeiro a desviar o olhar.
    -        No - respondeu por fim, se voltando para a janela. -
Teria feito a mesma coisa por qualquer pessoa. Simplesmente no
queria ver Jack machucando mais uma garota. No teve nada a
ver com voc em particular.
E com isso ele se encarapitou no parapeito da janela e saiu.
    Bati a veneziana com fora e soltei um enorme e dolorido suspiro.
    Foi ento que ouvi o som de um corpo rolando pelo telhado do caramancho e aterrissando com um baque surdo no caminho de paraleleppedos do jardim.

Capitulo 11 - Beco sem sada




    -        Voc no acha coincidncia demais que dois irmos
desloquem seus tornozelos no espao de uma semana? - me
perguntou Jack enquanto caminhvamos pela frente da manso dos
Chandler. - Ethan est at pior do que eu. No vou nem sequer
perder nenhum jogo do nosso time de rgbi. Mas ele com certeza
vai perder a maratona de Chicago e a corrida de dez quilmetros
pela campanha contra o cncer em Winnetka. E  capaz at de ter
arruinado suas chances de participar do campeonato estadual.
-        Que pena - repliquei friamente.
    Imaginei Ethan preso na cama a semana inteira. Ser que Lydia estaria l para atender a todas as necessidades dele? Provavelmente sim, to logo soubesse o que 
tinha acontecido.
    -        E j que estamos falando desse assunto - continuou Jack
-, o que afinal ele estava fazendo no telhado do caramancho da
sua casa?
Respirei fundo.
    Eu dispusera de algum tempo para preparar a resposta a essa questo, pois tinha certeza de que Jack a acabaria fazendo assim que passassem o nervosismo e a correria 
de levar Ethan ao pronto-socorro, assim que a famlia Chandler o houvesse acomodado confortavelmente em seu quarto, e assim que Jack tivesse me perguntado se eu 
gostaria de dar uma voltinha com ele l fora. Mal fazia dois minutos que estvamos sozinhos na rua e ele j saltara direto para a temida pergunta.
    -        A mesma coisa que voc fazia assistindo tev com Karen
Haupt - contra-ataquei, embora j no me sentisse to interessada
na resposta dele quanto pensei que me sentiria.
    Na verdade eu s pretendia ganhar tempo. Na ltima vez em que vira Jack, perguntara a mim mesma se ainda estaria ou no apaixonada por ele. Ser que agora eu 
ainda tinha alguma dvida?
    -        Mas a Karen  s uma amiga! - disse Jack na maior
tranqilidade. - Voc no est com cimes, est?
    - E voc beija todas as suas amigas daquele jeito? - perguntei com uma cnica doura. - Mas que bom amigo voc !
    - Ento vocs dois estavam me espionando da sua janela - Jack riu. - Eu sabia! S beijei a Karen pra deixar voc com cimes. Pra reanimar um pouco o nosso relacionamento. 
Nos ltimos dias voc no tem parecido muito... sei l... ansiosa por me ver. Achei que talvez estivesse se entediando comigo.
Ele passeou seus dedos pelas minhas costas.
    -        Ou talvez voc estivesse ficando entediado comigo -
retruquei.
    -        Ah, Gigi... - suspirou ele, se voltando para me encarar. -
Eu jamais me entediaria com voc. Nem depois de vrias vidas juntos.
    Jack soou to sincero que at desejei conseguir acreditar nele. Desejei que ele me beijasse e que todas as minhas aflies e dvidas se evaporassem como que 
por encanto ao toque de seus lbios nos meus. Mas eu sabia que isso no poderia mais acontecer.
Nunca mais.
No depois de Ethan ter aberto os meus olhos.
    -        Eu no devia ter tentado fazer voc ficar com cimes -
ele se desculpou.
-        No estou com cimes - repliquei com sinceridade.
E realmente no estava. Nem um pouquinho.
    Uma maravilhosa sensao de leveza me invadiu quando me senti livre de todo e qualquer cime, finalmente livre da minha obsesso por Jack.
Estava terminado. Definitivamente terminado.
E eu me sentia cem por cento aliviada.
    Percebi que na verdade nunca estivera apaixonada por Jack. Me apaixonara apenas pelo mito Jack Chandler, pelo que ele representava. Estivera apaixonada pela 
idia de ter um cara lindo, sofisticado, charmoso, inteligente e cobiado por todas as garotas da cidade interessado em mim. Acima de tudo, me apaixonara pela idia 
de estar apaixonada.
    Mas o Jack Chandler real no era capaz de se envolver profundamente com ningum. Ethan tentara me mostra isso. E apesar de continuar brigada com ele, eu no 
podia deixar de admitir que Ethan tinha razo.
    -        Bom, ento j que voc no est com cimes, por que no
me demonstra isso? Como dizem por a, os gestos falam mais alto
do que as palavras - sussurrou Jack enquanto enlaava minha
cintura.
Nossos lbios se tocaram, e minha deciso de terminar o namoro com Jack se confirmou ainda com mais fora. No senti nada.
Como diria Becky: zero, niente, rien. Jack se afastou e me olhou desconfiado.
    - Sabe, Gigi - comeou ele -, eu j sa com um pouco mais do que duas ou trs garotas. E desmanchei com a maioria delas. Portanto pode-se dizer que sou um expert 
em adeus. Este beijo teve um terrvel gosto de adeus. O que est acontecendo?
    - Bem... - hesitei, olhando para o cho e torcendo para conseguir dizer da melhor maneira possvel o que tinha a dizer. - Por toda a minha vida fui alucinada 
por voc, Jack. Era uma verdadeira obsesso. Mas agora, no sei por qu, no me sinto mais assim.
    Ele me pareceu estar refletindo sobre o que acabara de ouvir, sobre como essa virada no curso dos acontecimentos iria afetar sua vida, sobre se as pessoas ficariam 
ou no sabendo que fora eu quem rompera com ele. Conhecendo Jack como o conhecia, no ficaria surpresa em descobrir que ele prprio iniciara um boato de que me dera 
um p-na-bunda. Seria tpico de Jack, o Jack Chandler real, egocntrico, arrogante, insensvel, inseguro...
    To inseguro que precisava ser constantemente reassegurado por mim e por todos  sua volta de que era o maior. Essa era a razo pela qual Jack necessitava uma 
frota de garotas aos seus ps: uma s no era o bastante para faz-lo acreditar em si prprio.
    A no ser, talvez, uma garota muito especial. Alguma que tivesse muito mais pacincia do que eu.
    -        Sabe, Jack, a Karen Haupt  uma menina realmente legal.
Talvez voc devesse comear a sair com ela.
Ele concordou com um gesto de cabea.
    - Tem razo. Ela  legal mesmo, e bonita tambm. Eu nunca tinha reparado nela por que ns meio que crescemos juntos. Mais ou menos como voc e eu, acho.
- D uma ligada pra ela...
    - Talvez eu ligue sim. E... ns dois, podemos continuar sendo bons amigos? - ele perguntou, me estendendo a mo.
    - Claro que sim! - respondi num tom caloroso, pegando a mo dele.

- De todo jeito, isto no tem nada a ver com o Ethan, tem? Eu tivera esperanas de que ele no me fizesse aquela pergunta.
- No - menti -, no tem nada a ver com o Ethan.
    -        timo. Ento vamos subir e animar o garoto um pouco.
Devo essa a ele.
    Eu no queria ir. A ltima pessoa que desejava ver na minha frente era exatamente Ethan Chandler. Me sentia to idiota. Eu achara que Ethan gostava de mim, talvez 
mais do que como amiga, e a nica coisa que ele pretendera o tempo todo fora evitar que mais uma garota casse nas garras de seu irmo. Ele estivera apenas tentando 
me proteger de Jack, como teria protegido qualquer outra menina. Eu no era algum especial para ele. Ethan no me via da mesma maneira que agora eu sabia que o 
via: como algo mais do que um amigo.
Muito mais.
-        Vamos - incitou Jack, pegando na minha mo.
Apenas uma semana antes eu teria sentido uma onda de
prazer percorrendo o meu corpo ao toque da mo de Jack. Agora sentia apenas um forte puxo.
    Mas eu no ia explicar nada daquilo a Jack. No valia a pena. Jack no era capaz de enxergar os sentimentos de ningum alm dos seus prprios.
    -        Tudo bem - concordei relutante enquanto o seguia at o
andar de cima.
    Vestido com um abrigo de moletom azul e deitado em sua cama com a perna enfaixada apoiada numa pequena pilha de almofadas macias, Ethan me pareceu to miservel 
quanto um animal ferido e enjaulado. Parecia estar triste, entediado, sofrendo. Lutei com todas as minhas foras contra o impulso de correr para cima dele e abra-lo.
    Alm do mais, ele no ia querer que eu o abraasse. Ethan estava obcecado com a idia de me salvar de mim mesma.
    - Oi - disse ele num tom cauteloso, me olhando direto nos olhos.
    - Oi - cumprimentei, me sentando na cesta de roupas perto da porta.
    Desejei poder partir para Paris naquele exato segundo. Eu poderia terminar o colegial l. Ento, depois de quatro brilhantes, porm solitrios anos na Sorborme 
arranjaria um apartamento barato em Montparnasse e construiria uma bela carreira de jornalista. No meu tempo livre escreveria histrias de amor e traio com desfechos 
trgicos. E, mais importante, nunca mais em minha vida teria de ver Ethan Chandler.
    - Viemos perguntar se voc gostaria que trouxssemos alguma coisa pra tornar o seu confinamento um pouco mais suportvel - explicou Jack.
    - Obrigado - disse Ethan com um tom de voz inexpressivo e sem parar de me olhar.
    Desviei o rosto, perguntando a mim mesma se Lydia estaria vindo para lhe fazer companhia.
    - E ento, qual vai ser a sua encomenda de vdeos? - perguntou Jack. - E no se esquea das guloseimas. Quer alguma coisa em especial?
    - Pensei que voc tivesse de ficar deitado at receber a alta do mdico amanh - observou Ethan.
    - Estou de p desde que ouvi voc gritar que nem um elefante ferido l no quintal - replicou Jack. - Se lembra de quem carregou voc at o carro e do estacionamento 
do pronto-socorro at a sala de atendimento? Se lembra de quem subiu voc pela escada at o seu quarto? Alm do mais, esta famlia no d conta de dois filhos machucados 
ao mesmo tempo.
    - Bom, ento j que voc est definitivamente de p e andando, podia levar Gigi  pea da escola - props Ethan srio, virando seu rosto na direo da janela. 
- Se vocs correrem, ainda pegam o finzinho.
    - Acho que Gigi e eu no vamos mais juntos a lugar nenhum. Mas talvez eu d uma ligada pra Karen.
    - O qu!? - exclamou Ethan chocado, sentando-se de um salto na cama. - Karen o qu?
- Karen Haupt - respondeu Jack na maior tranqilidade.
-        Gigi e eu terminamos.
Ethan me olhou ainda mais srio.
    - Gigi, voc se importaria de esperar l fora por alguns minutos? - perguntou. - Tenho umas coisinhas para conversar com o Jack.
    - H... tudo bem, acho que no me importo - respondi meio sem jeito, encolhendo os ombros.
    Sa do quarto. Mas antes mesmo de que eu tivesse tempo de fechar a porta, Ethan comeou a gritar.
    -        Voc terminou com Gigi? Voc  mesmo um panaca! Ela
 superlegal, inteligente, linda, e os sentimentos que ela tem por
voc so de longe muito mais profundos do que os que qualquer
outra garota j teve antes! - berrou Ethan, furioso.
    Apertei a orelha contra a porta. Para uma casa to luxuosa, tanto as portas quanto as paredes eram sem dvida bastante finas.
    -        Puxa, mano, que honra, nunca imaginei que voc se
importasse tanto com a minha vida - replicou Jack calmamente.
-        Fico lisonjeado. E provavelmente voc tem razo quanto s
qualidades de Gigi. Mas a deciso no foi minha. Foi ela que
terminou comigo.
Silncio.
- H?... - disse Ethan depois de um segundo.
    - Exatamente o que voc ouviu. Foi Gigi quem terminou o nosso namoro. Mas, olha l, hein, no quero que voc espalhe isso por a. Poderia prejudicar a minha 
reputao.
    Sacudi a cabea com desgosto. Tpico de Jack. Justamente nesse ponto, achando que j fora o suficiente, empurrei a porta e entrei de volta no quarto. Ethan me 
olhou.
- Isso  verdade?
- Isso o qu? - perguntei inocentemente.
    - Sem essa, Gigi, sei muito bem que voc estava ouvindo atrs da porta - disse Ethan.
    - ,  verdade - respondi, reforando com um gesto de cabea.
    - Ento - interveio Jack, dando um tapinha no ombro de Ethan -, agora que tudo est esclarecido, por que voc no me passa logo a sua lista de vdeos? Estou 
pronto pra ir.
    - Quero o primeiro do Indiana Jones e o 2001 - Uma odissia no espao - respondeu Ethan com uma voz inexpressiva. - E quero o maior saco de batatas fritas que 
voc encontrar, biscoitos de chocolate e uma garrafa grande de soda limonada.
    - Seu desejo ser cumprido, mano - disse Jack. - Gigi, d uma olhada nele por mim enquanto vou  locadora. Ele parece mais ter despencado de um avio que de 
um telhado de trs metros de altura.
Jack saiu do quarto.
    - Voc realmente terminou com ele? - perguntou Ethan quando teve certeza de que seu irmo j acabara de descer a escada para o andar de baixo.
    - Foi - respondi mais uma vez, me sentando na beirada de sua cama.
    - Olha, Gigi, se estraguei a sua chance de ser feliz com o Jack, sinto muito, eu...
    - No foi isso o que voc disse pouco antes de cair do meu telhado - relembrei, interrompendo-o.
    - Eu apenas no queria que voc se machucasse e... e parece que acabei fazendo justamente o contrrio.
    - No foi por sua causa, Ethan - comecei, com uma voz suave. - Voc tinha razo. No teria dado certo entre mim e Jack. Finalmente percebi que no o amo. Eu 
amava a imagem que tinha dele, do cara mais bonito e mais charmoso do mundo. Mas graas a voc descobri que Jack no  o tipo de cara que quero como companheiro. 
Quero algum que v danar comigo, no se exibir para os amigos. Algum que converse comigo por horas, no que fique horas assistindo televiso. Algum que tenha 
sentimentos profundos por mim, pelos outros e pela vida, no algum que viva sempre na superfcie.
    -        E voc conhece algum assim? - perguntou ele, quase
num sussurro.
    Fiquei sem saber o que dizer. Queria gritar "voc, seu bobo!", mas depois de tudo o que Ethan me dissera antes de eu praticamente empurr-lo pela janela, eu 
tinha ficado ressabiada. No ia confessar a ele os meus verdadeiros sentimentos depois de ele ter dito de maneira indireta, porm bastante clara, que no estava 
interessado em mim, que teria feito exatamente a mesma coisa por qualquer outra garota que estivesse saindo com seu irmo. E, alm de tudo, havia Lydia Joyner.
    -        No, Ethan - menti, com as lgrimas j comeando a
marejar nos meus olhos. - No conheo ningum assim.


























Capitulo 12 - Um encontro casual



- Vamos l, Gigi, vai ser legal! - me estimulou Becky.
    - No estou a fim de ficar segurando vela - objetei pela dcima vez.
    - Eu sei muito bem que faz tempo que voc quer ver esse filme - insistiu Becky.
la no ia mesmo desistir.
- T bom, t bom, eu vou - concordei por fim.
- timo. A gente pega voc s sete e meia.
    Depois que Becky desligou o telefone, refleti sobre os rumos que estava dando  minha prpria vida. Fazia duas semanas que eu tinha terminado com Jack. Pouco 
depois ele e Karen tinham comeado a namorar. Becky e Andrew tambm pareciam firmes. E mais uma vez eu me vira sozinha numa noite de sbado. Por isso Becky, penalizada, 
me convidara para ir ao cinema com ela e Andrew.
    Eu no sabia o que era mais humilhante - se o fato de no ter companhia masculina para sair, ou ir ao cinema com a minha melhor amiga e seu namorado e me sentir 
atrapalhando a noite dos dois.
    Becky e Andrew me pegaram na hora combinada, e fomos direto para o Multiplex. Havia uma fila enorme para comprar entradas.
    - Vou entrar na fila da bilheteria - eu disse a eles - enquanto vocs dois ficam na fila dos que j tm entradas. Assim a gente pega um bom lugar.
- tima idia - disse Becky.
    Ela e Andrew saram andando de braos dados na direo da porta de entrada da sala de projeo.
    -        Voc se importa se eu furar a fila? - disse uma familiar
voz masculina bem perto do meu ouvido.
Me voltei rapidamente.
    - Ethan!? Oi!... - exclamei surpresa, me sentindo corar como sempre que o via ultimamente, como sempre que pensava nele.
- Voc veio sozinha?
    - ... Quer dizer, no. Vim com Becky e Andrew. E voc? - perguntei olhando ao meu redor, certa de que veria Lydia Joyner a qualquer momento.
-        Vim sozinho. O que voc acha de a gente se sentar juntos?
Concordei. Me sentindo meio tonta e mole, esperei em
silncio com ele na fila da bilheteria, e quando finalmente conseguimos comprar as entradas, fomos nos encontrar com Becky e Andrew na outra fila. Becky viu Ethan 
atrs de mim e me lanou um olhar interrogativo, mas eu simplesmente encolhi os ombros como resposta.
    Poucos minutos depois, durante os quais minha mente pareceu no registrar absolutamente nada, Ethan e eu j estvamos sentados lado a lado no escuro do cinema, 
e ele passara seu brao por cima do meu ombro.
    Quando o filme terminou, se algum tivesse me perguntado como era a histria, eu no teria sido capaz de contar nada. Zero. Niente. Rien.
    S conseguiria me lembrar de uma coisa: a maravilhosa sensao dos lbios de Ethan colados nos meus.
    Voltei para casa com Ethan, no jipe dele. Quando chegamos, ele desligou o motor e ficamos sentados em silncio por alguns minutos.
    Nenhum dos dois queria sair do carro. O sabor dos beijos de Ethan continuava intenso em meus lbios, e eles imploravam por mais. Mas antes eu precisava de respostas 
para algumas questes importantes.
Respirei fundo.
    -        O que aconteceu com a Lydia? - perguntei. - Vocs dois
no esto saindo juntos?
Ethan pareceu genuinamente chocado.
-        Claro que no! - respondeu. - De onde voc tirou essa idia?
    - Fiquei sabendo que voc levou ela ao Espresso Pacfico duas semanas atrs. Simplesmente supus...
    - Lydia s queria conversar comigo a respeito de sua relao com Jack, daquele interminvel vai-e-vem entre eles. Ela achou que talvez eu pudesse lanar alguma 
luz sobre o assunto, ou pelo menos ajud-la a entender o que havia de errado no namoro dos dois.
- E o que voc disse a ela?
    - Simplesmente disse que Jack no est pronto pra nenhum tipo de relacionamento srio.
- Ento no era um comeo de algo entre voc e ela?
- No, claro que no.
    Meus olhos sorriram por trs da cortina de gua que se formara neles e que ameaava transbordar para as minhas bochechas a qualquer momento.
A prxima pergunta era ainda mais difcil de fazer.
    -        Ento... voc ainda gosta de mim? Mesmo depois de eu ter
me arrastado durante tanto tempo atrs de Jack e de ter pratica
mente empurrado voc do telhado?
    Ele me puxou para si e me deu um longo e maravilhoso beijo que, mais uma vez, me fez ver milhares de estrelas e fogos de artifcio.
- Isso responde  sua pergunta?
    - Mas, Ethan, eu no entendo... - insisti, ainda confusa. - Quando voc entrou no meu quarto pela janela, me disse que no fizera o que fizera por se importar 
especialmente comigo. Disse que me protegera como protegeria qualquer outra garota que estivesse saindo com Jack.
    -        Simples: eu menti - disse Ethan, parecendo envergonhado. - No queria contar a verdade: que estava apaixonado
por voc. No queria pegar voc no rebote de Jack. Precisava dar
tempo ao tempo. Pra ter certeza de que voc tinha realmente se
desligado dele.
    Senti uma sbita claustrofobia dentro do jipe. Ethan percebeu o meu estado de esprito e saiu do carro para me abrir a porta do outro lado. Ele pegou na minha 
mo e samos andando  toa pelo grande quintal dos Chandler, sem falar nada.
Depois de uns poucos minutos Ethan quebrou o silncio.
- Voc me faria um grande favor?
- Qual?
- Olha que  grande... Encolhi os ombros.
- Diga o que , ento.
- Mudar de nome.
- Para qual?
- Gerolyn.
- Mas Gerolyn  to sem graa!
    -        Nunca achei isso. Alis, nem eu nem ningum. No  o
nome "Gigi", nem os seus brincos, nem as suas roupas novas,
nem o cabelo diferente que agora fazem todo mundo exclamar
"uau!" quando voc passa. Essas mudanas so bem-vindas, no
me entenda mal. Mas nada disso  to importante quanto o que
est por dentro. E por dentro voc  Gerolyn Pelka. Alm do mais,
d pra imaginar uma jornalista sria chamada Gigi? Parece nome
de poodle de madame!
    Reparei que tnhamos ido parar na varanda da piscina - o mesmo lugar em que Jack danara comigo pela primeira vez. Enxuguei energicamente as lgrimas que tinham 
comeado a pingar dos meus olhos de repente.
    - Deve haver algo de terrivelmente errado em mim, Ethan. No tem cabimento deixar de gostar de um cara e imediatamente me apaixonar por outro assim, como se 
tivesse mudado de uma estao de rdio pra outra.
    - Nunca passou pela sua cabea que talvez, l no fundo, voc sempre tenha sentido algo por mim?
Me virei e o olhei de frente.
    -        Sei de um jeito fcil de a gente descobrir se voc realmente
gosta de mim - acrescentou Ethan num tom brincalho.
Meus olhos se arregalaram.
Ele esticou sua mo. Cheguei mais perto dele, e um segundo depois estvamos nos beijando. Mais fogos de artifcio. Mais estrelas. E uma fome que no tinha nada a 
ver com comida.
E perfeio. Pura perfeio. Aquilo sim era de verdade. Quando Ethan finalmente me soltou, olhei para os olhos dele. E no quis mais desviar o olhar dali, por nada 
deste mundo.
    No voltei a Paris em janeiro. Em vez disso Ethan e eu fizemos uma bela viagem de frias para as montanhas, cm mais dois casais: Jack e Teresa (a ltima garota 
de Jack - certas coisas nunca mudam), e Andrew e Becky.
    Mas antes houve o baile de fim de ano da escola. O melhor baile da minha vida.
    Dancei quase todas as msicas com Ethan. Seus braos fortes envolvendo meu corpo, me guiando delicadamente pela pista de dana... Me senti uma princesa, no 
tanto por causa do mu chiqurrimo longo de seda azul-claro, mas sobretudo porque Ethan, to bonito, to elegante e to natural em seu smoking, parecia um verdadeiro 
prncipe.
    A ltima msica foi uma lenta. Ethan e eu continuamos danando depois que a cano terminou.
    -        Gostaria de poder ficar assim pra sempre - falei baixinho,
me aconchegando mais no corpo dele.
    -        Vamos ficar - sussurrou Ethan no meu ouvido. - Eterna
mente.
E acho que ele tem razo.
Querida Vronique,
    Recebi o seu carto-postal da Espanha hoje mesmo. No consigo acreditar que voc fugiu com o seu namorado.  to romntico! E que tal a Espanha? Ouvi dizer que 
a Costa dei Sol  deslumbrante. Espero algum dia poder conferir.
    Fiquei contente por voc ter me mandado o seu endereo temporrio a. Escrevi pro endereo de Paris j faz um bom tempo, e como no recebi nenhuma resposta pensei 
que voc tinha se esquecido de mim.
    Tenho algumas boas notcias pra dar: estou apaixonada, e desta vez  real! No por Jack, mas pelo irmo dele, Ethan. Incroyable!
     uma histria muito longa pra explicar por carta. Conto a voc pessoalmente - quando nos virmos daqui a trs meses!
    Pois , essa era a outra grande notcia: estou indo passar a Semana Santa com os Thibault, e Ethan vai junto! Ele nunca esteve em Paris, e quero mostrar a ele 
a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, e todos os lugares que eu mais adoro nessa cidade. Mas, acima de tudo, quero mostrar a ele uma coisa maravilhosa, maior do que 
tudo no mundo: o quanto eu o amo.
A bientt.
Mil beijos,
Gerolyn











































Crditos e Agradecimentos
   
? Renata Sara ? 

? ?????a ? 

? G.B ?


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